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A 22 metros do desastre: erro de comunicação entre torre e pilotos quase provoca colisão em Congonhas

Boeing da Gol e aeronave da Azul violaram distância mínima de segurança durante manobras simultâneas de pouso e decolagem; Cenipa investiga.

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A 22 metros do desastre: erro de comunicação entre torre e pilotos quase provoca colisão em Congonhas
Boeing da Gol e aeronave da Azul violaram distância mínima de segurança durante manobras simultâneas de pouso e decolageCrédito · G1

Os factos

  • Incidente ocorreu na manhã de quinta-feira (30) no Aeroporto de Congonhas, Zona Sul de São Paulo.
  • Um Boeing 737-800 da Gol, vindo de Salvador, e uma aeronave da Azul, com destino a Confins (MG), ficaram a apenas 22 metros de distância vertical.
  • A torre de controle autorizou a descida da Gol e, em seguida, a decolagem da Azul, mas a Azul demorou a iniciar a corrida.
  • O controlador ordenou a interrupção da decolagem e a arremetida da Gol, mas a tripulação da Azul não respondeu e manteve o procedimento.
  • O piloto da Gol recebeu instrução para fazer uma curva acentuada à direita, aumentando a distância entre as aeronaves.
  • O episódio é classificado como perda de separação e incidente grave, segundo especialistas em segurança de voo.
  • A Força Aérea Brasileira (FAB) e o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) abriram investigação.
  • Vídeos da comunicação entre torre e pilotos circularam nas redes sociais e foram repercutidos por canais estrangeiros especializados.

Aproximação crítica no ar mais movimentado do Brasil

Na manhã da última quinta-feira, o Aeroporto de Congonhas, no coração financeiro de São Paulo, esteve a segundos de um acidente de grandes proporções. Um Boeing 737-800 da Gol Linhas Aéreas, procedente de Salvador, e uma aeronave da Azul Linhas Aéreas, que se preparava para decolar com destino a Confins, em Minas Gerais, ficaram separados por apenas 22 metros de distância vertical — o equivalente a pouco mais de sete andares de um edifício. O incidente, classificado por especialistas como perda de separação, ocorreu quando as duas aeronaves realizaram manobras simultâneas de pouso e decolagem na mesma pista. A distância mínima de segurança exigida pelas regras internacionais da aviação é de aproximadamente 300 metros verticais, ou 1.000 pés. O Brasil adotou esse padrão em 2005, após reduzir o limite anterior de 600 metros, em função do aperfeiçoamento tecnológico das aeronaves.

Descompasso na comunicação entre torre e cabines

De acordo com registros de comunicação entre a torre de controle e os pilotos, obtidos pelo canal especializado Golf Oscar Romeo no YouTube, o incidente começou com um descompasso nos tempos de resposta. A torre autorizou a descida da aeronave da Gol para pouso e, em seguida, liberou a aeronave da Azul para entrar na pista e decolar. No entanto, a tripulação da Azul demorou a iniciar a corrida de decolagem, reduzindo a margem de segurança entre os dois voos. Ao perceber o risco iminente de conflito entre as trajetórias, o controlador ordenou a interrupção da decolagem e instruiu o piloto da Gol a realizar uma arremetida — manobra em que o pouso é abortado e a aeronave volta a ganhar altitude para uma nova tentativa. A primeira orientação não foi confirmada imediatamente pela tripulação da Azul. O controlador repetiu o comando, mas a aeronave da Azul manteve o procedimento de decolagem, por razões ainda não esclarecidas. O piloto da Gol, por sua vez, recebeu instrução adicional para executar uma curva acentuada à direita, aumentando a distância entre as aeronaves.

Passageiros registram susto e especialistas classificam como incidente grave

Imagens gravadas por um passageiro a bordo de uma das aeronaves mostram o momento em que os dois aviões aparecem perigosamente próximos durante a saída do terminal. O vídeo, que circulou amplamente nas redes sociais, foi capturado por câmeras do canal Golf Oscar Romeo e repercutido por veículos estrangeiros especializados em aviação. O youtuber norte-americano Aaron Rheins, que analisa incidentes aéreos, afirmou que os aviões ficaram “perigosamente próximos”. Especialistas em segurança de voo ouvidos pela imprensa classificam o episódio como incidente grave, embora não represente necessariamente risco imediato de colisão. A perda de separação ocorre quando duas aeronaves ficam mais próximas do que a distância mínima de segurança estabelecida pelas regras do Controle de Tráfego Aéreo, que podem ser verticais, laterais ou por tempo.

FAB e Cenipa abrem investigação; causas ainda são desconhecidas

A Força Aérea Brasileira (FAB) anunciou a abertura de uma investigação para apurar as circunstâncias do incidente. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) também vai analisar o caso, incluindo as comunicações entre a torre e os pilotos, os dados de voo e as condições operacionais do aeroporto. Até o momento, não há informações oficiais sobre as razões que levaram a tripulação da Azul a não responder à ordem de abortar a decolagem. A Azul e a Gol não se pronunciaram publicamente sobre o episódio. O incidente ocorreu em um dos aeroportos mais movimentados do país, responsável por centenas de voos diários, e reacende o debate sobre a segurança operacional em Congonhas.

Um alerta para a aviação brasileira

O incidente em Congonhas não resultou em feridos nem em colisão, mas expõe fragilidades no sistema de controle de tráfego aéreo e na comunicação entre pilotos e controladores. A perda de separação é um dos eventos mais críticos na aviação, pois pode levar a colisões no ar ou no solo se não for corrigida a tempo. Especialistas destacam que a distância de segurança no Brasil foi reduzida em 2005, acompanhando a modernização das aeronaves, mas que incidentes como este mostram que a tecnologia não substitui a necessidade de protocolos rigorosos e treinamento constante. A investigação do Cenipa deverá apontar se houve falha humana, técnica ou de procedimento. Enquanto as causas não são esclarecidas, o episódio serve como um lembrete de que a margem para erro na aviação é mínima — e que, em Congonhas, ela foi de apenas 22 metros.

Em resumo

  • Duas aeronaves ficaram a apenas 22 metros de distância vertical no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, caracterizando perda de separação.
  • A torre de controle autorizou manobras simultâneas de pouso e decolagem, mas a Azul demorou a decolar, reduzindo a margem de segurança.
  • O controlador ordenou a interrupção da decolagem e a arremetida da Gol, mas a tripulação da Azul não respondeu e manteve o procedimento.
  • O incidente é classificado como grave por especialistas, embora não tenha havido colisão ou feridos.
  • A FAB e o Cenipa abriram investigação para apurar as causas do descompasso na comunicação.
  • O caso reacende preocupações sobre a segurança operacional em Congonhas, um dos aeroportos mais movimentados do Brasil.
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