Lula adota discurso antissistema após derrotas no Congresso e estagnação nas pesquisas
Em pronunciamento nacional, presidente afirma que 'o sistema joga contra' e busca retomar pauta capturada pela direita global.
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BRAZIL —
Os factos
- Lula usou pela primeira vez o termo 'antissistema' em cadeia nacional de rádio e TV na quinta-feira.
- 52% dos brasileiros desaprovam o terceiro mandato de Lula, segundo pesquisa Genial/Quaest de abril.
- Senado rejeitou indicado ao STF e derrubou veto presidencial, abrindo caminho para redução de pena de Bolsonaro.
- Edinho Silva, presidente do PT, defendeu que militância retome pauta antissistema durante Congresso do partido.
- Governo aposta no fim da escala 6x1 como principal bandeira antissistema, mas depende do Congresso.
- Gleisi Hoffmann afirmou em janeiro: 'Ser antissistema é governar para o povo'.
- Lula aparece numericamente atrás de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno (42% a 40%).
Lula recorre ao discurso antissistema após reveses no Legislativo
Pressionado por derrotas consecutivas no Congresso e pela estagnação nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu apostar no discurso antissistema como estratégia para reação rumo à reeleição. O movimento, já sinalizado por outras lideranças petistas, ganhou contornos explícitos na última quinta-feira, quando o próprio presidente recorreu pela primeira vez ao uso literal da expressão em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão. Um dia após o Senado rejeitar novamente seu indicado ao Supremo Tribunal Federal — fato que não ocorria há mais de um século — e horas depois de parlamentares derrubarem seu veto ao PL da Dosimetria, que pode reduzir a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula não citou diretamente nenhum dos reveses. Em vez disso, aproveitou a véspera do 1º de Maio para se dirigir à população com uma mensagem repleta de acenos eleitorais, incluindo o lançamento de um novo programa de renegociação de dívidas.
O presidente afirma que 'o sistema joga contra' o povo brasileiro
Em seu pronunciamento, Lula declarou: 'Os obstáculos que temos pela frente são enormes. Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil.' A fala ocorre em um momento em que o governo enfrenta uma relação deteriorada com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), considerado um dos principais fiadores das derrotas recentes. Enquanto isso, aliados de Lula apostam em Hugo Motta (Republicanos-PB), que comanda a Câmara, para tentar viabilizar pautas prioritárias.
PT busca resgatar bandeira antissistema capturada pela direita global
Historicamente associado à esquerda, o lema de enfrentamento a supostas estruturas estabelecidas foi, na avaliação de pesquisadores, capturado pela direita global nos últimos anos, a partir de nomes como Donald Trump, nos Estados Unidos, e o próprio Bolsonaro. No último fim de semana, durante o Congresso do PT, o presidente da sigla, Edinho Silva, defendeu que a militância precisava retomar a pauta para si. 'Como pode estarmos em um ambiente de antissistema e o PT ficar recuado, acuado politicamente, e não ir falar que, se tem antissistema, a resposta está na esquerda, e não na direita e no fascismo? A resposta ao antissistema está conosco', afirmou Edinho. Em janeiro, a ex-ministra e deputada federal Gleisi Hoffmann já havia ensaiado tom similar, postando que 'ser antissistema é governar para o povo'.
Governo aposta em pautas concretas como isenção de IR e fim da escala 6x1
Para engrossar o discurso, a estratégia é tentar ressaltar iniciativas do governo vistas como ativos importantes junto à população menos favorecida. Nessa seara, encaixa-se a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, uma das principais apostas para a campanha de reeleição de Lula, embora pesquisas mostrem pouco impacto eleitoral até o momento. A principal pauta no quesito 'antissistema', porém, é o fim da escala 6x1, que o governo busca viabilizar junto ao Congresso. Edinho Silva, em vídeo postado nas redes, afirmou: 'Temos que mostrar à sociedade que nós somos o antissistema. E a gente só demonstra isso com questões bem práticas que o povo entende', mencionando especificamente a mudança na jornada de trabalho.
Pesquisas mostram desaprovação e cenário eleitoral adverso
Ao panorama adverso no Congresso somam-se as pesquisas recentes. Em abril, a Genial/Quaest mostrou que 52% da população desaprovam o terceiro mandato de Lula, contra aprovação de 43%. O mesmo instituto trouxe o petista numericamente atrás de Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno (42% a 40%). Os números reforçam a urgência do Planalto em reverter a tendência. Caso não consiga avançar com o fim da 6x1 no Legislativo, a resposta pode vir, mais uma vez, sob o verniz de discurso antissistêmico. Após os reveses sobre a indicação ao Supremo e a retomada do PL da Dosimetria, governistas passaram a resgatar a expressão 'Congresso inimigo do povo', muito utilizada no contexto dos debates sobre a escala 6x1.
Ato do 1º de Maio reforça cobranças ao Parlamento
Ontem, durante ato de 1º de Maio, petistas já trataram o assunto como prioritário, com cobranças ao Parlamento. A mobilização busca pressionar os deputados a aprovarem a redução da jornada de trabalho, bandeira que o governo espera capitalizar eleitoralmente. A aposta no discurso antissistema, no entanto, carrega riscos. Especialistas apontam que a direita já consolidou a narrativa de enfrentamento às instituições, e a esquerda pode ter dificuldade em ressignificá-la sem parecer contraditória. Resta saber se a estratégia de Lula conseguirá reverter o quadro adverso ou se aprofundará a polarização.
Em resumo
- Lula adotou o discurso antissistema após derrotas no Congresso e estagnação nas pesquisas, usando a expressão pela primeira vez em cadeia nacional.
- O PT busca retomar uma bandeira que foi capturada pela direita global, com nomes como Trump e Bolsonaro.
- O governo aposta no fim da escala 6x1 e na isenção do IR como pautas concretas para demonstrar seu caráter antissistema.
- Pesquisa Genial/Quaest mostra 52% de desaprovação ao governo Lula e empate técnico com Flávio Bolsonaro em segundo turno.
- A relação deteriorada com o Senado, especialmente com Davi Alcolumbre, dificulta a aprovação de pautas prioritárias.
- Governistas resgatam o termo 'Congresso inimigo do povo' para pressionar o Legislativo.
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