Actualité

Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre

Criação de empregos supera expectativas, mas acumulado de 613 mil postos nos três primeiros meses de 2026 é o menor desde 2023, pressionado por juros altos e efeitos do carnaval.

5 min
Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre
Criação de empregos supera expectativas, mas acumulado de 613 mil postos nos três primeiros meses de 2026 é o menor desdCrédito · Folha de S.Paulo

Os factos

  • Saldo líquido de março: 228.208 vagas, acima da mediana de 170.186 esperada pelo mercado.
  • No trimestre, foram 613.373 vagas, queda de 9,1% ante os 675.119 do mesmo período de 2025.
  • Acumulado em 12 meses (abril/2025 a março/2026) é de 1.211.455 postos, ante 1.627.326 no período anterior.
  • Serviços lideram com 152.391 novas vagas em março; agropecuária fechou 18.096 postos.
  • Salário médio de admissão caiu para R$ 2.350,83 em março, ante R$ 2.368,33 em fevereiro.
  • Ministro Luiz Marinho atribui desaceleração à alta da Selic, atualmente em 14,75%.
  • Carnaval em março de 2026 reduziu dias úteis, influenciando contratações atípicas.
  • Desde janeiro de 2023, foram gerados 7,2 milhões de empregos formais, segundo Marinho.

Criação de empregos supera projeções, mas ritmo desacelera

O Brasil registrou a abertura líquida de 228.208 vagas formais de trabalho em março, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados nesta quarta-feira pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O número superou a mediana de 170.186 vagas estimada por instituições consultadas pelo Valor Data, e ficou acima da expectativa de 150 mil postos apontada por pesquisa da Reuters com economistas. Apesar do resultado positivo, o primeiro trimestre de 2026 acumulou 613.373 vagas, uma queda de 9,1% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram gerados 675.119 postos. Esse é o menor saldo para o período desde 2023, quando o acumulado foi de 537.605 vagas. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que os dados indicam uma desaceleração do mercado de trabalho, influenciada pelo alto patamar da taxa básica de juros.

Efeito carnaval e dias úteis distorcem comparação mensal

O resultado de março de 2026 foi mais de três vezes superior ao de março de 2025, quando foram abertas apenas 79.994 vagas. Marinho explicou que a diferença se deve, em parte, ao calendário: em 2025, o carnaval ocorreu em março, reduzindo os dias úteis e as contratações, enquanto em 2026 a festa foi em fevereiro, liberando março para um maior número de dias trabalhados. A economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), destacou que ainda não está claro se o desempenho de março reflete apenas o efeito calendário ou sinaliza uma tendência. “Para isso, devemos aguardar abril e maio”, afirmou. Ela ressaltou que o governo pode dar estímulos adicionais à economia, o que poderia impulsionar o mercado de trabalho nos próximos meses.

Serviços e construção puxam vagas; agropecuária e comércio recuam

Na análise setorial de março, quatro dos cinco grandes grupamentos registraram saldo positivo. O setor de serviços liderou com 152.391 novas vagas, seguido pela construção (38.316), indústria geral (28.336) e comércio (27.267). A agropecuária foi o único setor com fechamento líquido, perdendo 18.096 postos. No acumulado do trimestre, o comércio apresentou saldo negativo de 19.525 vagas, enquanto serviços (382.229), construção (120.547), indústria (115.310) e agropecuária (14.752) tiveram desempenho positivo. Janaína Feijó observou que a construção civil permanece aquecida, impulsionada por obras de infraestrutura concentradas no primeiro semestre, especialmente em ano eleitoral.

Juros altos e cenário externo travam investimentos produtivos

O ministro Luiz Marinho afirmou que a alta da Selic é a principal responsável pela desaceleração do mercado de trabalho. Na quarta-feira, o mercado esperava que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzisse a taxa em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,5%. “Banco central, reduza mais um pouquinho, o juros está muito alto”, declarou Marinho. Janaína Feijó alertou que, embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de afrouxamento monetário, os efeitos da guerra no Irã sobre os preços do petróleo devem postergar a trajetória de queda dos juros. “Isso compromete muito os investimentos produtivos, o que acaba afetando o emprego”, disse a economista. Ela acrescentou que o crescimento dos salários — que subiram 1,8% em relação a março de 2025 — pode ser um sinal de mercado aquecido, mas também pode levar o BC a não reduzir os juros como esperado.

Salário médio de admissão cai, mas mantém alta anual

O salário médio de admissão dos novos empregados com carteira assinada foi de R$ 2.350,83 em março, uma queda de R$ 17,50 em relação a fevereiro. Já o salário médio de demissão recuou de R$ 2.471,35 para R$ 2.454,07 no mesmo período. Na comparação anual, o salário de admissão cresceu 1,8%, o que, segundo Janaína Feijó, indica que o mercado de trabalho ainda está aquecido. A economista do FGV Ibre destacou que a acomodação do nível de emprego é lenta, mas não há destruição líquida de postos. “O que vínhamos observando de desaceleração permanece. Não está havendo destruição líquida de postos, mas a criação de vagas vem de forma mais lenta do que em anos anteriores”, afirmou.

Perspectivas: ritmo de contratações depende de juros e estímulos fiscais

O ministro Luiz Marinho sustentou que a geração de empregos entrou em decréscimo em 2026 devido aos juros muito altos, que interferem no ritmo do primeiro trimestre. Ele lembrou que, de janeiro de 2023 até março de 2026, foram gerados 7,2 milhões de empregos formais no país, dos quais 5.021.186 no setor privado (celetistas) e 2.162.339 no setor público, segundo a subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, Paula Montagner. Para os próximos meses, a economista Janaína Feijó recomenda cautela: o efeito dos dias úteis extras em março pode não se repetir, e o cenário externo — com choque nos preços do petróleo — tende a manter a Selic elevada por mais tempo. “A gente tinha a previsão de uma taxa de juros menor para 2026, mas os desdobramentos do cenário externo acabam postergando esse cenário de taxa de juros mais branda”, concluiu.

Em resumo

  • Março de 2026 gerou 228.208 vagas formais, superando expectativas, mas o trimestre como um todo foi o pior desde 2023.
  • A desaceleração é atribuída principalmente à taxa Selic elevada (14,75%), que inibe investimentos produtivos.
  • Serviços e construção lideram a criação de vagas; agropecuária e comércio (no trimestre) tiveram saldo negativo.
  • O salário médio de admissão caiu em relação a fevereiro, mas subiu 1,8% na comparação anual, sinal de mercado ainda aquecido.
  • O efeito calendário (carnaval em março de 2025) distorceu a comparação mensal, mas a tendência de desaceleração é confirmada pelo acumulado em 12 meses.
  • A guerra no Irã e o choque nos preços do petróleo podem atrasar a queda dos juros, comprometendo a recuperação do emprego.
Galerie
Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 1Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 2Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 3Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 4Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 5Brasil gera 228 mil vagas formais em março, mas desaceleração persiste no primeiro trimestre — image 6
Mais sobre isto