Na China, Cantão troca o ronco do motor pela tomada: 30 milhões de elétricos rodam no país
A maior frota mundial de carros elétricos é a ponta de um plano que transforma desertos em usinas solares e reduz a dependência do petróleo, enquanto crises geopolíticas testam a estratégia.
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BRAZIL —
Os factos
- China tem mais de 30 milhões de carros elétricos rodando, a maior frota do mundo.
- Cantão (Guangzhou) é o polo automobilístico chinês, onde placas verdes indicam elétricos e azuis, a combustão.
- China importa 70% do petróleo que consome e, desde os anos 2000, trata o insumo como risco geopolítico.
- Em janeiro de 2026, EUA atacaram a Venezuela; em março, bombardearam o Irã, ambos exportadores de petróleo para a China.
- Projeto Midong, em Xinjiang, tem 3,5 GW e 5,26 milhões de painéis solares, a maior planta solar do mundo.
- Plano chinês prevê 253 GW de capacidade solar em desertos até 2030, somados a 202 GW eólicos, totalizando 455 GW.
- Grande Muralha Solar, no Deserto de Kubuqi, terá 100 GW até 2030, com faixa de 400 km por 5 km de painéis.
- Sombra dos painéis reduz evaporação da água do solo em até 30% e diminui velocidade do vento, contendo desertificação.
Cantão, de porta de entrada a polo da eletrificação
No sul da China, às margens do Rio das Pérolas, Cantão — nome dado pelos portugueses a Guangzhou — foi por séculos a única porta de entrada para o comércio europeu. Por ali desciam chá, porcelana e seda. Hoje, a cidade portuária exporta painéis solares, turbinas eólicas e baterias, carregando uma ideia: a de que o mundo pode depender menos do petróleo. A transformação é visível nas ruas. Placas verdes identificam carros elétricos; azuis, os a combustão. O som das cidades chinesas mudou: o ronco dos motores dá lugar à suavidade da energia limpa. Mais de 30 milhões de veículos elétricos circulam no país — a maior frota do planeta. O plano ambicioso do governo é trocar postos de gasolina por tomadas.
A dependência do petróleo como motor da estratégia
A China importa 70% de todo o petróleo que consome. Desde o início dos anos 2000, o governo passou a enxergar essa dependência como um risco geopolítico. Em 2015, a eletrificação da economia tornou-se plano econômico: reduzir a exposição ao petróleo e maximizar o uso de energias renováveis. O acerto da aposta ficou evidente em 2026. Em janeiro, os Estados Unidos atacaram a Venezuela e prenderam Nicolás Maduro, que exportava petróleo para a China. Menos de dois meses depois, com Israel, bombardearam o Irã, outro fornecedor chinês. Com o Estreito de Ormuz fechado, países como Sri Lanka e Mianmar impuseram racionamento de combustível; as Filipinas reduziram a semana de trabalho no serviço público para quatro dias; Bangladesh fechou universidades para economizar energia; e o preço das passagens aéreas disparou no mundo inteiro.
Desertos que viram usinas: o plano solar chinês
Enquanto o mundo enfrenta a crise do petróleo, a China acelera a construção de megaprojetos solares em seus desertos. No noroeste do país, vastas áreas áridas — como o Deserto de Gobi, o Deserto de Tengger e o Planalto de Loess — estão sendo cobertas por painéis fotovoltaicos e turbinas eólicas. O objetivo é gerar energia limpa para centenas de milhões de residências e, ao mesmo tempo, conter o avanço da desertificação. O projeto Midong, em Xinjiang, é o maior do mundo: 3,5 GW de capacidade, mais de 5,26 milhões de painéis solares, capazes de produzir 6,09 TWh por ano — o equivalente a uma central nuclear de porte médio, atendendo cerca de três milhões de residências. Outro empreendimento emblemático é a Grande Muralha Solar, no Deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, que deve atingir 100 GW até 2030, com uma faixa de 400 quilômetros de comprimento por 5 de largura. Quando concluído, poderá gerar 180 bilhões de kWh por ano, energia suficiente para abastecer a região de Pequim.
Números que impressionam: 455 GW até 2030
O governo chinês estabeleceu metas ambiciosas. O Plano de Controle da Desertificação Fotovoltaica prevê a instalação de 253 GW de capacidade solar apenas em regiões desérticas até 2030. Somada à capacidade eólica prevista para as mesmas áreas, o total chega a 455 GW — o equivalente a cerca de 20 usinas de Três Gargantas, a maior hidrelétrica do mundo. A lógica é tripla: energética, econômica e ambiental. A China precisa reduzir a dependência de combustíveis fósseis, que ainda dominam sua matriz elétrica. O custo dos painéis solares caiu drasticamente, e os terrenos desérticos são baratos. Além disso, o país se comprometeu a zerar as emissões líquidas de carbono até 2060. Usar desertos para gerar energia resolve dois problemas de uma vez: produz eletricidade onde não há concorrência com a agricultura e ainda combate a desertificação — a sombra dos painéis reduz a evaporação da água do solo em até 30% e diminui a velocidade do vento, segurando o avanço das dunas.
O impacto geopolítico e a corrida global por tecnologia limpa
A China continua exposta à alta do barril de petróleo, mas menos do que antes. A avaliação das três maiores empresas de baterias elétricas do país subiu 20% com a guerra. Com tecnologias mais baratas, o mundo corre para comprá-las e se proteger da dominância histórica do petróleo. O Paquistão, por exemplo, gerava apenas 3% de sua energia de placas solares em 2020; agora já são 30%. O plano chinês de eletrificação funciona como um guarda-chuva geopolítico e, ao mesmo tempo, beneficia o resto do mundo. A redução da poluição nas cidades é visível — embora o carvão ainda seja a principal fonte de eletricidade, com usinas deslocadas para longe dos centros urbanos. A queima de carvão continua aumentando, mas a aposta em renováveis sinaliza uma transição em curso.
O futuro que já começou: Cantão como símbolo
Cantão já foi para a China o que Detroit foi para os Estados Unidos: o grande polo automobilístico. A cidade que abriu o país para o mundo abraçou o carro como símbolo de modernidade, primeiro com parcerias com montadoras internacionais, depois copiando modelos e, finalmente, inovando. Com a entrada na Organização Mundial do Comércio, a China precisou respeitar regras de propriedade intelectual — e passou a desenvolver tecnologia própria. Hoje, Cantão exporta uma ideia: a de que é possível depender menos do petróleo. O que pode estar, neste momento, decidindo o futuro. A cidade mantém a vocação portuária, mas agora exporta placas solares, turbinas eólicas e baterias mais eficientes. O som das ruas mudou — e com ele, a geopolítica da energia.
Em resumo
- A China possui a maior frota de carros elétricos do mundo, com mais de 30 milhões de veículos, e planeja substituir postos de gasolina por tomadas.
- A dependência de 70% do petróleo importado levou o país a tratar o insumo como risco geopolítico desde os anos 2000, acelerando a eletrificação.
- Os ataques dos EUA à Venezuela e ao Irã em 2026, fechando o Estreito de Ormuz, validaram a estratégia chinesa de reduzir a exposição ao petróleo.
- Megaprojetos solares em desertos, como Midong (3,5 GW) e a Grande Muralha Solar (100 GW até 2030), devem totalizar 455 GW de capacidade renovável até 2030.
- A sombra dos painéis solares reduz a evaporação do solo em até 30% e ajuda a conter a desertificação, unindo geração de energia e recuperação ambiental.
- A China continua queimando carvão como principal fonte elétrica, mas a expansão das renováveis sinaliza uma transição que já impacta o mercado global de tecnologia limpa.







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