Tech

42 páginas perdidas do Novo Testamento são recuperadas por técnica de imagens multiespectrais

Pesquisadores da Universidade de Glasgow reconstroem fragmentos do Códice H a partir de vestígios de tinta deixados em páginas reutilizadas no século 13.

4 min
42 páginas perdidas do Novo Testamento são recuperadas por técnica de imagens multiespectrais
Pesquisadores da Universidade de Glasgow reconstroem fragmentos do Códice H a partir de vestígios de tinta deixados em pCrédito · G1

Os factos

  • O Códice H é um manuscrito do século 6 contendo as cartas de São Paulo.
  • 42 páginas foram recuperadas por meio de imagens multiespectrais e testes de radiocarbono.
  • O manuscrito foi desmembrado no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, Grécia, no século 13.
  • Fragmentos estão dispersos em bibliotecas na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.
  • A pesquisa foi liderada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow.
  • As páginas incluem as listas de capítulos mais antigas conhecidas das cartas de Paulo.
  • A equipe trabalhou com a Early Manuscripts Electronic Library (Emel).

Vestígios de tinta revelam texto bíblico oculto por séculos

No século 13, no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, na Grécia, um manuscrito do século 6 foi desmembrado. Suas páginas foram raspadas e reutilizadas para encadernar outros volumes, prática comum na época devido à escassez de materiais. O que ninguém previu é que os produtos químicos da nova tinta deixariam marcas fantasma nas páginas opostas, criando imagens espelhadas do texto original. Essas marcas, quase invisíveis a olho nu, permaneceram por séculos. Agora, uma equipe internacional liderada pelo professor Garrick Allen, da Universidade de Glasgow, conseguiu recuperar 42 páginas perdidas do Códice H, uma cópia do século 6 das cartas de São Paulo. A descoberta não envolveu novos fragmentos físicos, mas a reconstrução a partir desses vestígios de tinta.

Imagens multiespectrais e datação por radiocarbono confirmam autenticidade

Os pesquisadores aplicaram imagens multiespectrais a fotografias das páginas preservadas, captando luz em diferentes comprimentos de onda para isolar e realçar os traços quase imperceptíveis. A técnica foi desenvolvida em parceria com a Early Manuscripts Electronic Library (Emel), grupo especializado em leitura de manuscritos de difícil acesso. Para confirmar a autenticidade, especialistas em Paris realizaram testes de radiocarbono no pergaminho. Os resultados corroboraram a datação do manuscrito original no século 6, conforme informou a Universidade de Glasgow.

Listas de capítulos e anotações de escribas revelam prática textual antiga

Parte do conteúdo recuperado são fragmentos já conhecidos das cartas paulinas. O interesse maior da descoberta está em outros aspectos: as páginas incluem os exemplos mais antigos conhecidos de listas de capítulos das cartas de Paulo, que diferem significativamente das divisões usadas hoje. Elas também revelam correções e anotações feitas por escribas do século 6, evidência valiosa de como os textos sagrados eram lidos, corrigidos e transmitidos na prática. “Descobrir uma quantidade tão grande de novas evidências sobre o Códice H é monumental”, afirmou o professor Allen. As anotações mostram como os escribas interagiam com o texto sagrado, oferecendo uma visão única sobre a evolução do Novo Testamento.

Fragmentos dispersos por cinco países são reunidos virtualmente

Após o desmembramento no século 13, os fragmentos do Códice H foram parar em bibliotecas na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França. A equipe de Glasgow utilizou essas páginas espalhadas pela Europa para identificar os vestígios de tinta e reconstruir o texto original. O trabalho envolveu a análise de imagens multiespectrais das páginas adjacentes, onde a tinta havia deixado marcas por transferência química. O professor Allen explicou que os vestígios às vezes se estendem por várias páginas, tornando a recuperação um processo meticuloso.

Nova edição digital do Códice H já está disponível

De acordo com comunicado da Universidade de Glasgow, uma nova impressão do Códice H está em andamento. Uma edição digital gratuita, com as 42 páginas recuperadas, já está disponível no site da universidade. A descoberta oferece uma visão monumental da evolução do Novo Testamento e do manejo de textos sagrados na Antiguidade. As listas de capítulos e as anotações dos escribas fornecem pistas sobre como os primeiros cristãos organizavam e interpretavam as escrituras.

Um sistema de estudo do Novo Testamento mais antigo do que se pensava

As listas de capítulos encontradas no Códice H representam o sistema de estudo mais antigo conhecido do Novo Testamento. Elas diferem das divisões modernas, indicando que a estruturação dos textos bíblicos evoluiu ao longo dos séculos. A recuperação das 42 páginas não apenas resgata um patrimônio textual perdido, mas também ilumina as práticas de leitura e correção dos escribas do século 6. Para os estudiosos, é uma janela para a transmissão dos textos sagrados em um período crucial da história do cristianismo.

Em resumo

  • O Códice H, manuscrito do século 6, teve 42 páginas recuperadas por imagens multiespectrais a partir de vestígios de tinta.
  • As páginas incluem as listas de capítulos mais antigas das cartas de São Paulo, diferentes das divisões atuais.
  • Correções e anotações de escribas do século 6 revelam como os textos sagrados eram lidos e transmitidos.
  • Fragmentos do manuscrito estavam dispersos em bibliotecas de cinco países após o desmembramento no século 13.
  • Testes de radiocarbono em Paris confirmaram a datação do pergaminho no século 6.
  • Uma edição digital gratuita do Códice H com as páginas recuperadas está disponível online.
Galerie
42 páginas perdidas do Novo Testamento são recuperadas por técnica de imagens multiespectrais — image 142 páginas perdidas do Novo Testamento são recuperadas por técnica de imagens multiespectrais — image 242 páginas perdidas do Novo Testamento são recuperadas por técnica de imagens multiespectrais — image 3
Mais sobre isto