Escritor Afonso Reis Cabral instala-se uma semana no Colombo para escrever novo livro
Vencedor do Prémio Saramago em 2019, o autor de 36 anos vive desde 27 de abril numa antiga loja de sapatos do centro comercial lisboeta, numa residência literária que resultará numa obra da coleção 'Retratos' da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

PORTUGAL —
Os factos
- Afonso Reis Cabral, 36 anos, trineto de Eça de Queirós, venceu o Prémio Literário José Saramago em 2019 com o romance 'Pão de Açúcar'.
- Desde 27 de abril, está a viver durante uma semana numa antiga loja de sapatos convertida em apartamento no Centro Comercial Colombo, em Lisboa.
- A administração do Colombo aceitou o desafio do escritor, permitindo a residência literária.
- Desta experiência nascerá um livro integrado na coleção 'Retratos' da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
- O escritor já percorreu 738,5 km a pé pela Estrada Nacional 2 para escrever 'Leva-me Contigo' e, aos 13 anos, viajou de camião TIR até à Alemanha.
- O seu mais recente romance, 'O Último Avô', foi publicado em 2025.
Uma semana a viver no coração do Colombo
Desde segunda-feira, 27 de abril, o escritor Afonso Reis Cabral mudou-se para uma antiga loja de sapatos no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, onde permanecerá até à próxima segunda-feira. A iniciativa, anunciada pelo próprio nas redes sociais, foi possível graças à 'ousadia' da administração do centro comercial, que aceitou o desafio e lhe abriu as portas. Instalado num espaço adaptado a habitação, o autor de 36 anos descreve-se como 'o único verdadeiro autóctone desta cidade dentro da cidade'. O Colombo, com o seu fluxo diário de milhares de pessoas, tornou-se o cenário de uma residência literária que visa transformar o quotidiano do centro comercial em matéria para um novo livro. O projeto insere-se na coleção 'Retratos' da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que publicará a obra resultante desta experiência.
O fascínio pelos centros comerciais e a busca de histórias
Afonso Reis Cabral sempre se sentiu fascinado por centros comerciais. 'Pelo Colombo passam milhares de pessoas por dia. Tanta gente, tanta humanidade, só pode resultar em boas histórias', explicou. O objetivo é observar e compreender quem ali circula: trabalhadores, visitantes, casais, pessoas que procuram companhia ou que vêm espantar a solidão. 'Ou quero descobrir quem vive aqui quase mais do que eu', afirmou o escritor, que vê no espaço comercial uma espécie de cidade paralela, com uma vida própria que se desenrola para além das compras. Durante a noite, depois do fecho, uma outra população substitui as multidões do dia: seguranças, agentes da polícia e operários das obras de requalificação. 'É que a minha casa, uma antiga loja de sapatos onde montaram um apartamento, fica ao lado de uma intervenção que exige martelo pneumático. Embora com mais barulho, os operários trabalham o cimento como uma caneta trabalha o papel', relatou.
Uma carreira marcada por experiências insólitas
Esta não é a primeira vez que Afonso Reis Cabral recorre a aventuras pouco convencionais para alimentar a sua escrita. Aos 13 anos, viajou de camião TIR até à Alemanha em busca de uma história, peripécia que viria a repetir mais tarde. Em 2019, percorreu a pé os 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, experiência que deu origem ao livro 'Leva-me Contigo – Portugal a pé pela Estrada Nacional 2'. Nascido em Lisboa em 1990 e trineto do escritor Eça de Queirós, Afonso Reis Cabral publicou o primeiro livro, 'Condensação', aos 15 anos. Em 2014, venceu o Prémio LeYa com o romance 'O Meu Irmão'. No final de 2018, lançou 'Pão de Açúcar', com o qual conquistou o Prémio Literário José Saramago em 2019. O seu mais recente romance, 'O Último Avô', foi publicado em 2025 e atravessa três gerações marcadas por perdas e segredos, com o fantasma da Guerra Colonial.
A reação à morte de Lobo Antunes e o lugar dos imortais
Afonso Reis Cabral tem estado também na ribalta devido à sua reação à morte do escritor António Lobo Antunes. Numa entrevista à SIC Notícias, sublinhou a forma como Lobo Antunes mergulhava no interior de si mesmo e destacou o papel revolucionário da sua obra, que 'marca um antes e um depois'. 'Toda a obra de Lobo Antunes é um rebuscar nesse labirinto dentro dele mesmo e isso é revolucionário', afirmou. Além disso, o escritor discursou na cerimónia de trasladação de Eça de Queirós para o Panteão Nacional, em janeiro passado, numa manhã chuvosa de inverno. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, também usaram da palavra. O trineto de Eça de Queirós participou assim na homenagem ao 'lugar dos imortais', como lhe chamou Marcelo.
O que esperar do novo livro
A obra que resultará desta residência literária no Colombo será publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, integrada na coleção 'Retratos'. O objetivo é captar histórias e personagens que habitam o espaço comercial, transformando o centro comercial num cenário literário. O escritor não revelou ainda pormenores sobre o conteúdo, mas a sua abordagem promete um retrato humano de um lugar onde, acredita, se vive quase tanto quanto fora dele. A experiência termina na próxima segunda-feira, após uma semana de imersão total. Resta saber que histórias o escritor trará consigo da 'cidade dentro da cidade'.
Em resumo
- Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Saramago 2019, está a viver uma semana no Colombo para escrever um livro da coleção 'Retratos'.
- A administração do centro comercial aceitou o desafio do escritor, permitindo-lhe instalar-se numa antiga loja de sapatos.
- O autor já realizou outras experiências literárias insólitas, como viajar de camião para a Alemanha e percorrer 738,5 km a pé.
- O novo livro será publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e focar-se-á no quotidiano do centro comercial.
- Afonso Reis Cabral é trineto de Eça de Queirós e discursou na trasladação do escritor para o Panteão Nacional.
- A obra 'O Último Avô', de 2025, é o seu romance mais recente.




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