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Craig Venter, o biólogo que acelerou o genoma humano e criou vida artificial, morre aos 79 anos

O cientista e empresário norte-americano, que transformou a sequenciação do ADN numa corrida global, sucumbiu a complicações de um tratamento oncológico em San Diego.

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Craig Venter, o biólogo que acelerou o genoma humano e criou vida artificial, morre aos 79 anos
O cientista e empresário norte-americano, que transformou a sequenciação do ADN numa corrida global, sucumbiu a complicaCrédito · Público

Os factos

  • Craig Venter morreu em 29 de maio de 2025, em San Diego, aos 79 anos.
  • Em 2000, a sua empresa Celera Genomics anunciou o primeiro rascunho do genoma humano, com mais de 90% descodificado.
  • O genoma sequenciado pela Celera era do próprio Venter, que se revelou dador anónimo.
  • Venter criou a primeira bactéria artificial, marcando o início da biologia sintética.
  • Recebeu a Medalha Nacional de Ciências do presidente Barack Obama em 2009.
  • Foi considerado pela revista Time uma das pessoas mais influentes do mundo em 2007 e 2008.
  • Venter serviu na Guerra do Vietname como enfermeiro e foi preso duas vezes por desobediência.

O visionário que desafiou o governo e venceu

John Craig Venter morreu nesta quarta-feira, 29 de maio, aos 79 anos, em San Diego, na Califórnia, vítima de complicações decorrentes de um tratamento contra o cancro. A notícia foi confirmada pelo Instituto J. Craig Venter, centro de investigação que ele próprio fundou. Venter ficou conhecido por ter transformado a sequenciação do genoma humano numa competição global. Em 1990, o Projeto Genoma Humano, financiado pelo governo dos Estados Unidos com 3 mil milhões de dólares, avançava a um ritmo que Venter considerava demasiado lento. Em 1998, fundou a Celera Genomics para provar que o seu método era mais rápido e mais barato. A aposta resultou: a 26 de junho de 2000, Venter e o consórcio público anunciaram em conjunto a conclusão do primeiro rascunho do genoma humano, com mais de 90% da sua composição descodificada pela primeira vez na história. O feito foi um marco para a medicina moderna.

Uma vida de desafios: do Vietname à biologia sintética

Venter nasceu em Salt Lake City, filho de um mórmon alcoólico que morreu aos 59 anos. Apesar de ser contra a guerra, alistou-se na Marinha e serviu no Vietname, onde trabalhou numa enfermaria de um hospital de campo. Foi preso duas vezes durante o conflito por desobediência. Ao regressar a San Diego, planeou estudar Medicina na Universidade da Califórnia, mas optou pela Bioquímica, obtendo doutoramentos em fisiologia e farmacologia. Mais tarde, tornou-se presidente do J. Craig Venter Institute, dedicado à biologia sintética. Em 2010, a sua equipa anunciou a criação da primeira bactéria artificial, um marco na biologia sintética. A experiência abriu caminho para a engenharia de organismos com aplicações potenciais em energia, medicina e ambiente.

O dador anónimo era ele próprio

Durante anos, a identidade do dador cujo genoma foi sequenciado pela Celera permaneceu um segredo. Mais tarde, revelou-se que o dador anónimo era o próprio Venter. A descoberta, concluída em 2003, revolucionou a ciência e a medicina. A sequenciação completa do genoma humano permitiu avanços significativos no diagnóstico de doenças raras, na compreensão de doenças genéticas e no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e direcionados. Também impulsionou tecnologias de sequenciação de ADN mais rápidas e baratas, facilitando a análise genética em grande escala. Pela primeira vez, os cientistas puderam ver todos os componentes genéticos de um organismo de vida livre, fornecendo um manual do arsenal genético das bactérias. Isto deu início a uma corrida para sequenciar os genomas de muitos agentes patogénicos conhecidos.

Reconhecimento e legado

Venter foi distinguido com a Medalha Nacional de Ciências pelo presidente Barack Obama em 2009. A revista Time considerou-o uma das pessoas mais influentes do mundo em 2007 e 2008. A sua abordagem empreendedora e competitiva gerou controvérsia, mas também acelerou um dos maiores feitos científicos da humanidade. Venter provou que o financiamento privado podia rivalizar com o investimento público e, ao fazê-lo, encurtou o tempo necessário para descodificar o genoma humano. O Instituto J. Craig Venter continua a sua investigação em biologia sintética e genómica, mantendo vivo o legado do fundador.

O impacto na medicina e na ciência

A sequenciação do genoma humano abriu portas para a medicina personalizada, permitindo tratamentos adaptados ao perfil genético de cada paciente. Doenças raras e hereditárias passaram a ser melhor compreendidas e diagnosticadas. As tecnologias de sequenciação de ADN tornaram-se mais acessíveis, reduzindo custos e tempo. Hoje, sequenciar um genoma humano custa uma fração do que custava há duas décadas, graças em parte à pressão competitiva que Venter introduziu. A criação da primeira bactéria artificial também marcou um ponto de viragem na biologia sintética, com implicações éticas e científicas que ainda estão a ser debatidas.

O futuro da investigação genómica

Com a morte de Venter, o campo da genómica perde uma das suas figuras mais carismáticas e controversas. O seu instituto continuará a trabalhar em projetos de biologia sintética e sequenciação. As questões éticas levantadas pela criação de vida artificial e pela comercialização do genoma humano permanecem em aberto. Venter defendeu sempre que a ciência devia avançar sem amarras, mas o debate sobre os limites da manipulação genética está longe de estar resolvido. O legado de Venter é duplo: o conhecimento científico que ajudou a gerar e o modelo de competição que transformou a investigação biomédica. A sua vida, marcada por riscos e desafios, deixa uma marca indelével na história da ciência.

Em resumo

  • Craig Venter morreu aos 79 anos em San Diego, vítima de complicações de um tratamento oncológico.
  • Liderou a sequenciação privada do genoma humano, concluindo o primeiro rascunho em 2000.
  • O genoma sequenciado pela Celera era o do próprio Venter, revelado posteriormente.
  • Criou a primeira bactéria artificial em 2010, marco da biologia sintética.
  • Recebeu a Medalha Nacional de Ciências em 2009 e foi duas vezes listado pela Time como um dos mais influentes.
  • O seu instituto continua a investigação em genómica e biologia sintética.
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