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Julgamento de ex-ministra Vitória de Barros Neto expõe teia de corrupção no sector das pescas

Primeira sessão no Tribunal Supremo revela acusações de peculato e desvio de quotas de pesca, com prejuízos estimados em 150 milhões de dólares namibianos.

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Julgamento de ex-ministra Vitória de Barros Neto expõe teia de corrupção no sector das pescas
Primeira sessão no Tribunal Supremo revela acusações de peculato e desvio de quotas de pesca, com prejuízos estimados emCrédito · SAPO

Os factos

  • Ex-ministra das Pescas e do Mar, Vitória de Barros Neto, é julgada por peculato e desvio de quotas de pesca.
  • Prejuízos estimados em 150 milhões de dólares namibianos.
  • Caso está ligado ao escândalo internacional Fishrot.
  • Sessão inaugural ocorreu no Tribunal Supremo, processo n.º 51/25.
  • Juiz conselheiro João Fuantoni indeferiu nulidades e confirmou avanço do julgamento.
  • Co-arguidos: Rafael Virgílio Pascoal, Yanga Nsalamby Mário e Jaime Domingos Alves Primo.
  • Julgamento inicialmente previsto para 22 de Abril foi adiado sem explicação oficial.

Abertura do julgamento no Tribunal Supremo

A primeira sessão de julgamento da ex-ministra das Pescas e do Mar, Vitória de Barros Neto, arrancou hoje no Tribunal Supremo, sob um ambiente carregado de expectativa e desconfiança. O processo n.º 51/25 surge como um teste à capacidade do Estado angolano em responsabilizar figuras de topo envolvidas em esquemas de corrupção de dimensão internacional. A sessão inaugural, iniciada às 09h30, limitou-se à leitura da acusação e ao tratamento de questões prévias. Mas bastou para deixar claro que o julgamento promete expor um dos mais sensíveis dossiês de alegado saque ao erário público ligado ao sector das pescas.

Acusações de peculato e desvio de quotas

Pela voz do procurador Lucas Ramos, o Ministério Público apresentou uma narrativa pesada: a ex-governante terá utilizado o cargo para montar um esquema de desvio de fundos públicos, explorando acordos bilaterais entre Angola e a Namíbia. No centro das acusações está o crime de peculato — a apropriação indevida de receitas provenientes da comercialização de pescado numa zona marítima partilhada — e o alegado desvio de quotas de pesca, com prejuízos estimados em cerca de 150 milhões de dólares namibianos. O caso não é isolado. Está directamente ligado ao escândalo internacional conhecido como Fishrot, que revelou uma teia de corrupção envolvendo políticos, empresas e interesses estrangeiros na exploração de recursos pesqueiros.

Estratégia da defesa e decisão do juiz

Do lado da defesa, a advogada Suzana Inglês optou por uma abordagem técnica, centrada em travar o avanço do processo. Recorde-se que, já em 2025, a defesa tentou impedir o julgamento através de um pedido de instrução contraditória, alegando fragilidade nos fundamentos da acusação. Sem sucesso. Na sessão de hoje, a estratégia manteve-se: negação total da participação directa da arguida nos alegados desvios e insistência na legalidade dos actos administrativos praticados durante o exercício de funções governativas. O juiz conselheiro João Fuantoni não deixou margem para dúvidas quanto à condução do julgamento. Indeferiu as nulidades levantadas pela defesa, validou a leitura da acusação e confirmou o avanço do processo para a fase seguinte. Mais ainda: anunciou um calendário que inclui a audição dos co-arguidos — Rafael Virgílio Pascoal, Yanga Nsalamby Mário e Jaime Domingos Alves Primo — e sublinhou que a produção de prova será conduzida com rigor, tendo em conta a natureza transnacional do caso.

Cronologia e transparência do processo

Apesar da gravidade das acusações e da dimensão internacional do escândalo, o histórico da justiça angolana recomenda prudência. Casos mediáticos envolvendo figuras ligadas ao poder político têm, frequentemente, terminado em condenações brandas, absolvições controversas ou arrastamentos processuais intermináveis. O facto de o julgamento ter sido adiado sem explicação oficial — inicialmente previsto para 22 de Abril — apenas reforça a percepção de opacidade que continua a marcar processos sensíveis. Uma advertência clara: este não será um julgamento de fachada — pelo menos na forma.

Contexto do escândalo Fishrot

O escândalo Fishrot, que envolve a exploração de recursos pesqueiros na Namíbia e em Angola, já levou à queda de governantes e executivos de empresas internacionais. A teia de corrupção inclui subornos, desvio de licenças de pesca e lavagem de dinheiro, com ramificações em vários países africanos e europeus. O caso de Vitória de Barros Neto é um dos primeiros a chegar a julgamento em Angola, num contexto de pressão internacional por transparência e responsabilização. A dimensão transnacional do caso exige cooperação judicial entre Angola e Namíbia, bem como o rastreio de fluxos financeiros suspeitos.

Próximos passos e expectativas

O julgamento avança para a fase de audição dos co-arguidos, com calendário definido pelo juiz Fuantoni. A produção de prova incluirá testemunhas e documentos que podem esclarecer o papel de cada um dos envolvidos. A defesa deverá continuar a contestar a validade das provas, enquanto o Ministério Público busca demonstrar a existência de um esquema orquestrado a partir do topo do ministério. O desfecho do processo será observado de perto por organizações de direitos humanos e pela comunidade internacional, que vêem neste julgamento um indicador da seriedade do combate à corrupção em Angola.

Análise: um teste ao Estado de Direito

O julgamento de Vitória de Barros Neto não é apenas um processo judicial; é um teste à capacidade do sistema angolano de aplicar a lei a todos, independentemente do poder político. A insistência da defesa em questões processuais levanta uma questão recorrente na justiça angolana: quando os processos envolvem figuras poderosas, discute-se mais a forma do que o conteúdo? A decisão do juiz de rejeitar as nulidades e avançar com o caso sinaliza uma possível mudança, mas o histórico de impunidade recomenda cautela. O mundo observa enquanto Angola decide se o Estado de Direito prevalece sobre os interesses de elite.

Em resumo

  • O julgamento da ex-ministra Vitória de Barros Neto é um marco no combate à corrupção em Angola, ligado ao escândalo Fishrot.
  • As acusações incluem peculato e desvio de quotas de pesca, com prejuízos de 150 milhões de dólares namibianos.
  • O juiz rejeitou as nulidades da defesa e confirmou o avanço do processo, com audição de co-arguidos marcada.
  • O adiamento do julgamento de 22 de Abril sem explicação oficial levanta dúvidas sobre a transparência do processo.
  • O histórico de impunidade em casos de alto perfil contrasta com a promessa de um julgamento rigoroso.
  • A comunidade internacional monitoriza o caso como indicador da seriedade do Estado de Direito em Angola.
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