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Governador do Banco de Portugal declara 1.166 euros em contas à ordem, mas ganha 19.915 euros mensais

Álvaro Santos Pereira comprou ações da Galp e Jerónimo Martins após assumir o cargo, mas teve de as vender por incompatibilidade com regras do BCE.

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Governador do Banco de Portugal declara 1.166 euros em contas à ordem, mas ganha 19.915 euros mensais
Álvaro Santos Pereira comprou ações da Galp e Jerónimo Martins após assumir o cargo, mas teve de as vender por incompatiCrédito · Correio da Manhã: Portugal, Mundo, Sociedade, Cultura. Classificados

Os factos

  • Álvaro Santos Pereira declarou à Entidade para a Transparência (EpT) em janeiro de 2026 possuir 1.166 euros em três contas à ordem.
  • O governador do Banco de Portugal aufere um salário mensal de 19.915 euros desde que tomou posse a 5 de outubro de 2025.
  • Santos Pereira investiu cerca de 25 mil euros em ações da Nestlé, The Navigator Company, Galp Energia e Jerónimo Martins entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
  • O comité de ética do Banco Central Europeu considerou a detenção de ações incompatível com o cargo e ordenou a alienação até 30 de junho.
  • O governador vendeu os títulos em abril, obtendo uma mais-valia de aproximadamente 3.000 euros, que doou a uma instituição de responsabilidade social.
  • Santos Pereira declarou ser proprietário de uma moradia T3 no Algarve com valor patrimonial superior a 433 mil euros.
  • A declaração de rendimentos e património foi entregue no prazo de 60 dias após o início de funções, conforme a lei nº 52/2019.

Um salário de 20 mil euros, uma conta de 1.166 euros

O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, declarou à Entidade para a Transparência (EpT) possuir apenas 1.166 euros em contas bancárias à ordem, distribuídos por três depósitos: 765 euros, 231 euros e 170 euros. O montante contrasta com o salário mensal de 19.915 euros que aufere desde que assumiu funções a 5 de outubro de 2025. Na declaração entregue em janeiro de 2026, Santos Pereira não indicou poupanças em depósitos a prazo, aplicações financeiras ou carteiras de títulos. A única referência a bens imóveis é uma moradia T3 no Algarve, com valor patrimonial superior a 433 mil euros. A disparidade entre o rendimento mensal e o saldo bancário levantou questões sobre a gestão financeira do governador, que não especificou onde aplica a maior parte do seu vencimento.

Compra de ações após a posse e intervenção do BCE

Pouco depois de tomar posse, Santos Pereira reforçou a sua carteira de investimentos, adquirindo ações da Galp Energia e da Jerónimo Martins. As transações ocorreram em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, totalizando cerca de 25 mil euros, e foram comunicadas ao Banco Central Europeu (BCE) no início de 2026. O comité de ética do BCE analisou o negócio e concluiu que a detenção de ações é incompatível com o cargo de alto responsável da banca central da região. A regulamentação do BCE proíbe operações com ações a membros da sua direção. Em 1 de abril, o BCE notificou oficialmente Santos Pereira, dando-lhe até 30 de junho para alienar os títulos. O governador cumpriu a ordem em abril, vendendo todas as ações.

Mais-valia de 3.000 euros doada a instituição social

A venda das ações gerou uma mais-valia de aproximadamente 3.000 euros. Santos Pereira decidiu doar esse valor a uma instituição de responsabilidade social, seguindo a recomendação do BCE. O Banco de Portugal confirmou que as aquisições foram realizadas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mas não especificou o número de títulos ou o montante aplicado em cada empresa. Além da Galp e da Jerónimo Martins, o governador investiu também na Nestlé e na The Navigator Company. A doação foi apresentada como um gesto de transparência e compromisso ético, mas não dissipou as dúvidas sobre a origem dos fundos utilizados nas compras.

Obrigação legal de declarar património

A declaração de Santos Pereira foi entregue no âmbito da lei nº 52/2019, que obriga titulares de cargos políticos e altos cargos públicos a apresentar uma declaração detalhada de rendimentos e património no prazo de 60 dias após o início de funções. O documento deve incluir rendimentos anuais, bens imóveis, veículos, participações financeiras e depósitos. O governador cumpriu o prazo, mas a omissão de poupanças ou aplicações financeiras, além do saldo reduzido, gerou especulação sobre o seu perfil de investidor. A declaração não menciona depósitos a prazo ou outras formas de liquidez. A Entidade para a Transparência (EpT) é responsável por fiscalizar estas declarações, mas não há indicação de que tenha aberto um processo de averiguação.

Reações e contexto político

O caso ganhou relevância pública num momento em que a transparência dos altos cargos está sob escrutínio em Portugal. A oposição política tem criticado a falta de clareza sobre a gestão financeira de Santos Pereira, embora o governador não tenha sido alvo de acusações formais. O Banco de Portugal emitiu um esclarecimento sobre as transações, sublinhando que o governador agiu em conformidade com as orientações do BCE. No entanto, a cronologia dos factos — compra de ações após a posse e subsequente reversão — levanta questões sobre o conhecimento prévio das regras. Especialistas em ética pública apontam que a situação ilustra a complexidade das normas que regem os altos cargos, especialmente quando envolvem instituições financeiras internacionais.

O que esperar a seguir

Santos Pereira terá de apresentar novas declarações anuais à EpT, que permitirão acompanhar a evolução do seu património. O BCE continuará a monitorizar o cumprimento das regras de conduta. A doação da mais-valia pode ser vista como um esforço para mitigar danos reputacionais, mas não responde à questão central: como um governador que ganha 20 mil euros por mês tem apenas 1.166 euros em contas à ordem? A ausência de explicações sobre o destino do restante rendimento mantém a controvérsia acesa. O caso poderá ainda levar a um debate mais amplo sobre a transparência dos vencimentos e investimentos dos altos cargos públicos em Portugal, especialmente quando envolvem supervisão bancária.

Em resumo

  • Álvaro Santos Pereira declarou à Entidade para a Transparência possuir apenas 1.166 euros em contas à ordem, apesar de um salário mensal de 19.915 euros.
  • O governador investiu 25 mil euros em ações após a posse, mas o BCE considerou a detenção incompatível e obrigou à venda.
  • A venda gerou uma mais-valia de 3.000 euros, que Santos Pereira doou a uma instituição social.
  • A declaração de património não inclui depósitos a prazo ou outras aplicações financeiras, apenas uma moradia no Algarve.
  • O caso levanta questões sobre a transparência financeira dos altos cargos e a aplicação das regras do BCE.
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