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Irmão de Nininho Vaz Maia entre os 24 polícias detidos por tortura em esquadras de Lisboa

Mário Vaz Maia, agente da PSP e irmão do cantor, foi detido esta terça-feira no âmbito de uma investigação que já levou à prisão de duas dezenas de polícias suspeitos de tortura, violação e abuso de poder contra detidos vulneráveis.

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Irmão de Nininho Vaz Maia entre os 24 polícias detidos por tortura em esquadras de Lisboa
Mário Vaz Maia, agente da PSP e irmão do cantor, foi detido esta terça-feira no âmbito de uma investigação que já levou Crédito · Observador

Os factos

  • 24 polícias detidos até agora, incluindo Mário Vaz Maia, irmão do cantor Nininho Vaz Maia.
  • 15 agentes e um civil detidos esta terça-feira; antes, dois em julho de 2025 e sete em março de 2026.
  • Cerca de 70 agentes envolvidos em grupos de WhatsApp e Telegram onde partilhavam vídeos de tortura.
  • Vítimas maioritariamente imigrantes, toxicodependentes e sem-abrigo, muitas em situação ilegal.
  • Acusações incluem tortura, tortura grave, violação, abuso de poder e roubo.
  • Ministro da Administração Interna, Luís Neves, admite possível 'pacto de silêncio' entre agentes.
  • Vítimas identificaram 'a maioria' dos suspeitos nas instalações do Cometlis.
  • Grupos de mensagens operacionais usados para partilhar informações e vídeos de agressões.

Detenções em massa abalam a PSP

A investigação às alegadas torturas e violações em esquadras da PSP de Lisboa atingiu esta terça-feira um novo patamar, com a detenção de 15 agentes e um civil – elevando para 24 o número total de polícias detidos. Entre os novos detidos está Mário Vaz Maia, irmão do conhecido cantor Nininho Vaz Maia, confirmou uma fonte ligada ao caso. Os agentes encontram-se detidos nas instalações do Cometlis, o comando metropolitano da PSP de Lisboa, onde aguardam a apresentação a um juiz de instrução para primeiro interrogatório e aplicação de medidas de coação. Devido ao elevado número de arguidos, este processo poderá prolongar-se até ao final da semana, segundo fonte conhecedora do processo.

Uma teia de cumplicidade e silêncio

O caso remonta a julho de 2025, quando dois recém-chegados agentes, Guilherme L. e Óscar B., foram detidos. Mais tarde, o Ministério Público acusou-os de tortura, abuso de poder, violação e roubo, entre outros crimes, praticados contra pessoas vulneráveis. O despacho da procuradora Felismina Carvalho Franco descreve como os arguidos escolhiam vítimas entre 'os seres humanos mais fragilizados pela sua condição humana degradada', visando maioritariamente toxicodependentes e autores de pequenos delitos. Em março, o número de detidos aumentou para nove, com a acusação a incluir agora o crime de tortura grave. Esta terça-feira, o número mais do que duplicou, com a detenção de 15 agentes e um civil – este último descrito como um segurança de discoteca. O ministro da Administração Interna, Luís Neves, que desde a tomada de posse defende uma política de 'tolerância zero' face a desvios policiais, admitiu que pode ter havido 'um pacto de silêncio' entre os envolvidos, embora recuse a existência de uma 'cultura instalada' na polícia.

WhatsApp e Telegram como palco de horrores

Durante pelo menos um ano, grupos de mensagens no WhatsApp e Telegram, com cerca de 70 membros, foram utilizados para partilhar vídeos de detidos – maioritariamente migrantes – a serem severamente torturados, agredidos ou violados. Uma fonte da PSP, que pediu anonimato, explicou que existem, em regra, dois tipos de grupos: um que reúne todos os elementos de cada esquadra (até 70 ou 80 agentes) e um 'grupo operacional' para turnos específicos, onde se partilham informações sobre intervenções. Além destes, há subgrupos que reúnem agentes de várias esquadras e divisões que frequentaram o mesmo curso de entrada na polícia. Foi nestes canais que circularam as imagens das agressões – espancamentos a soco, pontapés, bastonadas e uso de gás pimenta contra vítimas algemadas a bancos, em total vulnerabilidade. Num dos episódios mais chocantes, os agentes usaram luvas de boxe para socar detidos e chegaram a 'crucificar' uma mulher dentro da esquadra.

Vítimas identificam suspeitos

Poucas horas após as detenções, algumas vítimas compareceram nas instalações do Cometlis e conseguiram identificar 'a maioria' dos suspeitos de terem participado nas situações de violência – seja por terem estado presentes a assistir, seja por terem gravado as agressões. Apesar de a maioria das vítimas ser de origem estrangeira, o Ministério Público não menciona, por enquanto, qualquer motivação racial nos crimes. O despacho de acusação contra Guilherme e Óscar é particularmente elucidativo: os agentes aproveitavam 'a vulnerabilidade das vítimas para, de forma violenta, perversa, descontrolada/descompensada, exibindo mesmo requintes de malvadez, praticarem as suas ações, em total desrespeito pela integridade física das vítimas e em completo desrespeito aos direitos fundamentais e liberdades e garantias de cada cidadão', abusando 'da autoridade que lhes foi confiada pelo Estado português'.

Reações e consequências para a instituição

Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, afirmou que o caso 'manchará e muito' a polícia, mas defendeu a necessidade de apurar o nível de envolvimento de cada agente. 'Não sabemos quais deles tiveram participação ativa, quantos tiveram participação omissiva e podemos ter alguns polícias que souberam do que se passou e não tiveram intervenção nos factos, mas omitiram a denúncia', disse. O ministro Luís Neves, em entrevista à CNN, recusou a ideia de uma 'cultura instalada' de abusos, mas reconheceu que pode ter existido um pacto de silêncio entre os agentes. A investigação, que já dura há quase um ano, continua a decorrer e o número de envolvidos pode ainda aumentar – o inquérito-crime abrange cerca de 70 agentes, entre autores, espectadores e incentivadores dos crimes.

O que esperar dos próximos passos

Os 24 detidos aguardam agora a apresentação a juiz, que decidirá as medidas de coação a aplicar. Dada a complexidade do caso e o elevado número de arguidos, o processo poderá prolongar-se por vários dias. A investigação continua a tentar apurar o papel de cada um dos cerca de 70 agentes identificados nos grupos de mensagens. O caso já levanta questões sobre a supervisão interna da PSP e a eficácia dos mecanismos de denúncia. O ministro da Administração Interna prometeu uma postura 'intransigente', mas o escândalo ameaça abalar a confiança pública na instituição policial. As vítimas, muitas delas imigrantes em situação irregular, continuam a ser ouvidas e a colaborar com as autoridades.

Em resumo

  • Mário Vaz Maia, irmão do cantor Nininho Vaz Maia, está entre os 24 polícias detidos por suspeitas de tortura e abuso de poder.
  • A investigação envolve cerca de 70 agentes que partilhavam vídeos de violência em grupos de WhatsApp e Telegram.
  • As vítimas são maioritariamente imigrantes, toxicodependentes e sem-abrigo, muitas em situação ilegal em Portugal.
  • Os crimes incluem tortura, tortura grave, violação, abuso de poder e roubo, com descrições de 'requintes de malvadez'.
  • O ministro da Administração Interna admite um possível 'pacto de silêncio' entre os agentes envolvidos.
  • O processo de medidas de coação para os 24 detidos pode arrastar-se até ao final da semana.
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