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Google assina acordo com Pentágono para uso de IA em operações militares secretas

Mais de 600 funcionários da empresa assinam carta aberta contra o que consideram riscos de vigilância em massa e armas autónomas letais.

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Google assina acordo com Pentágono para uso de IA em operações militares secretas
Mais de 600 funcionários da empresa assinam carta aberta contra o que consideram riscos de vigilância em massa e armas aCrédito · Euronews.com

Os factos

  • Alphabet assinou acordo com o Departamento de Defesa dos EUA permitindo uso dos modelos de IA Google para 'qualquer finalidade governamental legal'.
  • Mais de 600 funcionários da Google assinaram carta aberta a Sundar Pichai contra o acordo.
  • Carta foi assinada por mais de 20 diretores, diretores séniores e vice-presidentes, incluindo pessoal da DeepMind e Cloud.
  • Acordo exige que a Google ajuste configurações de segurança e filtros de IA a pedido do governo.
  • Cláusula do acordo afirma que o sistema não se destina a vigilância em massa interna ou armas autónomas sem supervisão humana, mas não confere à Google direito de vetar decisões operacionais do governo.
  • Em 2025, Pentágono já havia assinado acordos de até 200 milhões de dólares com Anthropic, OpenAI e Google.
  • CEO da Anthropic, Dario Amodei, recusou acesso irrestrito ao Pentágono, levando Trump a ordenar que departamentos parassem de usar o chatbot Claude.
  • Plataforma multimodelo do Pentágono já conta com dezenas de milhares de agentes de IA criados por utilizadores.

Funcionários da Google insurgem-se contra acordo militar com Pentágono

Mais de 600 trabalhadores da Google apelaram à empresa para rejeitar um possível acordo com o Pentágono que permitiria usar a sua inteligência artificial em operações militares secretas. A carta aberta, dirigida ao presidente executivo Sundar Pichai, foi divulgada esta segunda-feira e assinada por pessoal da Google DeepMind, da Cloud e de outras divisões, incluindo mais de 20 diretores, diretores séniores e vice-presidentes. “Queremos que a IA beneficie a humanidade, e não que seja usada de forma desumana ou extremamente prejudicial”, lê-se na carta. “Isto engloba armas letais autónomas e vigilância em massa, mas não se fica por aqui.” O documento surge numa altura em que o gigante tecnológico negocia com o Departamento de Defesa dos EUA a possível utilização do seu modelo de IA Gemini em contextos classificados.

Acordo permite uso de IA para 'qualquer finalidade governamental legal'

A empresa-mãe da Google, a Alphabet, terá assinado um acordo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos que permite a utilização dos modelos de Inteligência Artificial em trabalhos confidenciais. O acordo, avançado pelo The Information e citado pela Reuters, permite que o Pentágono use os modelos para 'qualquer finalidade governamental legal' e exige que a Google ajuste as configurações de segurança e os seus filtros de IA a pedido do Governo norte-americano. O acordo inclui uma cláusula que coloca limites a potenciais usos desmedidos, mencionando que 'as partes concordam que o sistema de IA não se destina a, e não deve ser utilizado para, vigilância em massa interna ou armas autónomas (incluindo a seleção de alvos) sem supervisão e controlo humanos adequados'. Porém, a mesma cláusula acrescenta que 'o acordo não confere qualquer direito de controlar ou vetar a tomada de decisões operacionais legítimas do Governo', deixando a porta aberta a esses usos.

Trabalhadores temem usos antiéticos e falta de escrutínio

Os funcionários signatários consideram que a sua 'proximidade com esta tecnologia lhes confere a responsabilidade de alertar para os seus usos mais antiéticos e perigosos e de os impedir'. Entre estes usos, expressaram preocupação quanto à utilização de IA para vigilância em massa e uso de potenciais armas autónomas letais, bem como com os índices de precisão dos modelos, salientando que a IA comete erros. “As tarefas classificadas são, por definição, opacas”, afirmou um dos trabalhadores envolvidos na organização, não identificado no comunicado. “Neste momento, não há forma de garantir que as nossas ferramentas não sejam usadas para causar danos graves ou para corroer liberdades civis longe do escrutínio público. Falamos de práticas como perfilar indivíduos ou orientar ataques contra civis inocentes.”

Contexto de pressão crescente sobre empresas de IA

Esta carta surge numa altura em que as empresas de tecnologia enfrentam uma pressão crescente para esclarecer de que forma as suas ferramentas de IA podem ser usadas pelos militares e pelos serviços de informações. A startup Anthropic já tinha processado o Departamento de Defesa dos EUA depois de ter sido classificada como 'risco para a cadeia de abastecimento', na sequência do pedido para que os seus sistemas não fossem utilizados para vigilância em massa ou guerra autónoma. O presidente executivo da Anthropic, Dario Amodei, afirmou que 'não pode, em boa consciência, aceder ao pedido do Pentágono' para ter acesso irrestrito aos sistemas de IA da empresa. “Em determinados casos, acreditamos que a IA pode minar, em vez de defender, os valores democráticos”, escreveu Amodei. “Algumas utilizações estão simplesmente fora do âmbito do que a tecnologia atual pode fazer de forma segura e fiável.” Em resposta, o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou aos departamentos governamentais que deixassem de utilizar o chatbot Claude da Anthropic.

Pentágono aposta em diversificação de fornecedores de IA

O Departamento de Defesa dos EUA está a expandir a utilização dos modelos de IA do Google, integrando soluções adicionais na sua plataforma multimodelo. A plataforma está a expandir-se rapidamente, com os utilizadores já a criarem dezenas de milhares de agentes de IA para apoiar as operações diárias, desde a automatização de processos até à análise de dados. Espera-se que os novos modelos do Google melhorem a qualidade da resposta, reduzam erros e aumentem a produtividade dos utilizadores que trabalham com dados sensíveis. O Pentágono está a construir consistentemente um ambiente sem um único fornecedor dominante. A par do Google, outros intervenientes também estão a fornecer modelos, destacando uma tendência clara para a diversificação e a redução da dependência de qualquer parceiro específico. Neste contexto, é particularmente notável que o Google esteja a avançar cada vez mais para uma área que, até agora, tem estado mais intimamente associada à OpenAI e à Anthropic, nomeadamente os lucrativos contratos do setor da defesa.

Contratos militares como motor de crescimento a longo prazo

Este segmento poderá tornar-se um dos mais importantes motores de crescimento a longo prazo para as empresas que desenvolvem modelos avançados de IA. Para o Google, isto representa um reforço significativo da sua posição numa das partes mais estratégicas do mercado. A empresa não está apenas a aperfeiçoar os seus modelos, mas também a posicionar-se onde são tomadas as decisões orçamentais mais importantes e onde a IA está a tornar-se não apenas uma ferramenta de negócio, mas um ativo geopolítico. Do ponto de vista do investidor, as receitas provenientes de contratos deste tipo só se tornarão visíveis nos próximos trimestres. A curto prazo, o mercado está focado no próximo catalisador: o relatório de resultados da Google na quarta-feira. As expectativas continuam elevadas, particularmente em torno da monetização da IA e do crescimento do segmento da nuvem. Embora as notícias de hoje apoiem a narrativa de investimento a longo prazo da Google, a reação do mercado a curto prazo dependerá principalmente de os próximos resultados confirmarem que a empresa está efetivamente a traduzir o impulso da IA em receitas reais.

Em resumo

  • Alphabet assinou acordo com Pentágono para uso de IA Gemini em operações classificadas, permitindo 'qualquer finalidade governamental legal'.
  • Mais de 600 funcionários da Google assinaram carta aberta contra o acordo, alertando para riscos de vigilância em massa e armas autónomas letais.
  • Cláusula do acordo proíbe vigilância em massa e armas autónomas sem supervisão humana, mas não permite à Google vetar decisões operacionais do governo.
  • Em 2025, Pentágono já havia assinado acordos de até 200 milhões de dólares com Anthropic, OpenAI e Google.
  • CEO da Anthropic recusou acesso irrestrito ao Pentágono, levando Trump a ordenar que departamentos parassem de usar o chatbot Claude.
  • Pentágono está a diversificar fornecedores de IA, criando um ecossistema multimodelo com dezenas de milhares de agentes de IA.
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