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Sanae Takaichi torna-se a primeira mulher primeira-ministra do Japão após aliança de última hora

A conservadora de 64 anos, admiradora de Margaret Thatcher, assume o cargo num momento de crise política e demográfica, com a visita do presidente Donald Trump já na próxima semana.

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Sanae Takaichi torna-se a primeira mulher primeira-ministra do Japão após aliança de última hora
A conservadora de 64 anos, admiradora de Margaret Thatcher, assume o cargo num momento de crise política e demográfica, Crédito · Nikkei Asia

Os factos

  • Sanae Takaichi, de 64 anos, foi nomeada primeira-ministra do Japão pela Câmara Baixa do Parlamento nesta terça-feira.
  • É a primeira mulher a ocupar o cargo na história do Japão.
  • Takaichi venceu a presidência do Partido Liberal Democrático (PLD) em 4 de outubro, derrotando Shinjiro Koizumi no segundo escrutínio.
  • O PLD perdeu a maioria nas duas câmaras do Parlamento devido a escândalos financeiros.
  • O Komeito, aliado tradicional do PLD, abandonou a coligação em vigor desde 1999.
  • Takaichi formou na segunda-feira uma aliança com o Partido Japonês para a Inovação (Ishin) para garantir a eleição.
  • O governo cessante de Shigeru Ishiba, que durou 386 dias, renunciou em bloco horas antes da votação.
  • O Japão ocupa o 118.º lugar entre 148 no relatório de 2025 do Fórum Económico Mundial sobre disparidade de género.

Uma ascensão histórica num parlamento fragmentado

Sanae Takaichi, de 64 anos, tornou-se esta terça-feira a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão, após ser nomeada pela Câmara Baixa do Parlamento logo na primeira votação. A nomeação será oficializada quando se encontrar com o imperador Naruhito. A ascensão de Takaichi ocorre num contexto de profunda fragmentação política. O Partido Liberal Democrático (PLD), a formação conservadora que governa o país quase ininterruptamente desde 1955, perdeu a maioria nas duas câmaras do Parlamento nos últimos meses, abalado por escândalos financeiros. O aliado tradicional do PLD, o partido centrista Komeito, abandonou a coligação em vigor desde 1999, incomodado com os escândalos e com as opiniões conservadoras de Takaichi. Para garantir a eleição para a chefia do Governo, Takaichi formou na segunda-feira uma aliança de última hora com o Partido Japonês para a Inovação (Ishin), uma formação reformista de centro-direita. Horas antes da votação, o gabinete do primeiro-ministro cessante, Shigeru Ishiba, renunciou em bloco numa reunião no Kantei, a sede do governo central japonês, pouco antes das 9:00 horas locais (00:00 TMG).

De baterista de heavy metal a primeira-ministra

Nascida em 1961 na província de Nara, filha de um funcionário público e de uma policial, Takaichi teve uma trajetória invulgar antes de entrar na política. Foi baterista de uma banda de heavy metal e apresentadora de televisão. Na juventude, trabalhou no gabinete da congressista norte-americana Patricia Schroeder, onde começou a interessar-se por política durante o auge das tensões comerciais entre Estados Unidos e Japão. Disputou a primeira eleição em 1992 sem sucesso, mas foi eleita deputada no ano seguinte. Ingressou no PLD em 1996 e, desde então, construiu uma longa carreira, ocupando cargos como ministra da Segurança Económica, do Comércio e Indústria e das Comunicações – pasta onde teve o mandato mais longo da história. Takaichi é uma admiradora de longa data da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a quem chama de inspiração pessoal, e é conhecida pela defesa de valores tradicionais japoneses. É também uma das figuras mais conhecidas e controversas da política japonesa, posicionando-se entre os membros mais conservadores do PLD.

Uma agenda internacional densa e a visita de Trump

A nova primeira-ministra enfrenta uma agenda internacional densa, que tem como primeiro ponto mais alto a visita ao Japão do Presidente norte-americano, Donald Trump, já na próxima semana. Takaichi terá de navegar um relacionamento conturbado entre EUA e Japão e levar adiante um acordo tarifário com o governo Trump, firmado pelo governo anterior. Além disso, promete retomar a política económica “Abenomics” e revisar restrições constitucionais sobre as forças militares, numa altura em que o Japão enfrenta tensões com a China e já iniciou a implantação de mísseis de longo alcance. O professor Jeff Kingston, diretor de Estudos Asiáticos da Universidade Temple, em Tóquio, disse à BBC que Takaichi dificilmente teria “muito sucesso em sanar a cisão interna do partido”. Kingston observou que Takaichi pertence à facção “linha-dura” do PLD, que acredita que “a razão pela qual o apoio ao PLD implodiu é porque perdeu o contato com seu DNA de direita”.

Os números da crise demográfica e da desigualdade de género

O Japão está classificado em 118.º lugar entre 148 no relatório de 2025 do Fórum Económico Mundial sobre a disparidade entre os sexos. A câmara baixa do Parlamento nipónico conta com apenas 15% de mulheres. Takaichi prometeu um Executivo com um número de mulheres “à escandinava”, em contraste com apenas duas na equipa do antecessor. Uma delas deverá ser Satsuki Katayama, ex-ministra da Revitalização Regional, que ocupará o cargo de ministra das Finanças, de acordo com a imprensa japonesa. No entanto, as suas posições políticas sobre a igualdade de género colocam-na à direita de um PLD já conservador. Takaichi opõe-se à revisão de uma lei que obriga os casais a usarem o mesmo apelido e apoia uma sucessão imperial reservada aos homens. Apesar disso, quer trazer para a agenda das políticas públicas uma nova sensibilidade para as dificuldades relacionadas com a saúde das mulheres e não hesita em falar abertamente sobre os seus sintomas relacionados com a menopausa. Takaichi também enfrentará a luta contra o declínio demográfico do Japão e a recuperação da quarta maior economia mundial, que caminha a um ritmo lento, com famílias a sofrer com a inflação implacável e os salários estagnados.

O legado de Ishiba e os desafios internos do PLD

O governo de Shigeru Ishiba, que substituiu o de Fumio Kishida em outubro de 2024, durou pouco mais de um ano: 386 dias. Ishiba anunciou a renúncia no mês passado após uma série de derrotas eleitorais que fizeram a coligação governista perder a maioria em ambas as casas do parlamento. Takaichi terá de garantir que o PLD recupere parte da sua antiga glória, num partido abalado por escândalos e conflitos internos. “Com todos vós, inaugurámos uma nova era para o PLD”, disse a nova líder aos seus pares alguns minutos após a sua eleição. A quinta líder do arquipélago no mesmo número de anos enfrenta uma situação política delicada no país. O professor Jeff Kingston sublinhou que a facção linha-dura de Takaichi acredita que o partido perdeu o contacto com o seu DNA de direita, o que pode dificultar a união interna.

O que esperar dos primeiros dias de governo

Takaichi já agendou reuniões com líderes internacionais e prometeu um discurso de posse focado na necessidade de mudança no PLD e na prioridade do interesse nacional. A sua nomeação será oficializada após a audiência com o imperador Naruhito. Entre os desafios imediatos estão a colossal dívida nacional, a economia em crise e as crescentes preocupações com a imigração. A nova primeira-ministra terá também de lidar com a cisão interna do partido e com a desconfiança de muitos eleitores. Apesar do feito histórico de ser a primeira mulher a liderar o Japão, muitas eleitoras não a veem como uma defensora do progresso, dadas as suas posições conservadoras em questões de género. O seu governo será observado de perto tanto internamente como no cenário internacional.

Em resumo

  • Sanae Takaichi é a primeira mulher primeira-ministra do Japão, nomeada após uma aliança com o Partido Japonês para a Inovação.
  • O PLD perdeu a maioria parlamentar devido a escândalos financeiros, e o Komeito abandonou a coligação histórica.
  • Takaichi é uma conservadora linha-dura, admiradora de Margaret Thatcher, e promete retomar a Abenomics e rever restrições militares.
  • O Japão enfrenta uma crise demográfica, com baixa representação feminina no parlamento e uma economia estagnada.
  • A visita do presidente Donald Trump na próxima semana será o primeiro grande teste diplomático do novo governo.
  • A nova primeira-ministra terá de unir um partido dividido e recuperar a confiança dos eleitores.
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