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Túnel subaquático entre Espanha e Marrocos avança com novos estudos geológicos e orçamento de 553 mil euros

Após décadas de planeamento, o projeto do megatúnel ferroviário sob o Estreito de Gibraltar ganha impulso em 2025 com campanhas de investigação do fundo marinho e reforço da cooperação bilateral.

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Túnel subaquático entre Espanha e Marrocos avança com novos estudos geológicos e orçamento de 553 mil euros
Após décadas de planeamento, o projeto do megatúnel ferroviário sob o Estreito de Gibraltar ganha impulso em 2025 com caCrédito · Jornal Económico

Os factos

  • O túnel terá 42 km entre terminais, com 28 km submersos e profundidade máxima de 475 metros.
  • Espanha e Marrocos assinaram acordo de cooperação em 1980, reforçado em 1989 e 1991.
  • A 43.ª reunião do Comité Misto hispano-marroquino ocorreu em abril de 2023.
  • Em abril de 2025, Rabat e Madrid firmaram novas convenções de cooperação em digitalização e engenharia.
  • SECEGSA e CSIC formalizaram campanha de investigação do fundo marinho no Umbral de Camarinal em dezembro de 2025.
  • O orçamento da campanha é de 553.187,38 euros, financiado pela SECEGSA em 2025 e 2026.
  • O projeto atual prevê dois túneis ferroviários, sem túnel de serviço intermédio, para reduzir custos e tempo.
  • A ligação Portugal-Marrocos, orçada em mais de 800 milhões de euros, está em fase de planeamento.

Um megatúnel que liga continentes

O projeto de um túnel subaquático entre Espanha e Marrocos, que atravessaria o Estreito de Gibraltar, é uma das infraestruturas mais ambiciosas já concebidas entre a Europa e África. Depois de décadas de estudos, o plano entra numa nova fase de atualização técnica, cooperação bilateral e investigação geológica, embora ainda sem decisão final de construção. A base do projeto assenta num acordo de cooperação firmado em 1980, reforçado por um acordo adicional em 1989 e pelo Tratado de Amizade, Boa Vizinhança e Cooperação de 1991. O relançamento mais recente ganhou expressão política com a 43.ª reunião do Comité Misto hispano-marroquino, em abril de 2023.

O traçado e a engenharia do túnel

Segundo a SECEGSA, a sociedade mercantil do setor público estatal espanhol que gere o projeto, a solução de base liga Punta Paloma, em Tarifa, a Malabata, na zona de Tânger. O megatúnel terá cerca de 42 quilómetros entre terminais, com um traçado marítimo de aproximadamente 28 quilómetros e profundidades máximas na ordem dos 475 metros. A configuração atual prevê dois túneis ferroviários, sem um túnel intermédio autónomo de serviço e segurança, uma opção que visa reduzir custos e tempo de execução. Esta variante substitui o conceito anterior de três túneis paralelos.

O maior desafio: o Umbral de Camarinal

O ponto mais sensível do projeto é o Umbral de Camarinal, uma área central do Estreito que exige estudos geológicos aprofundados. Em dezembro de 2025, a SECEGSA e o CSIC formalizaram uma campanha de investigação do fundo marinho nessa zona, com o objetivo de melhorar o conhecimento da batimetria, geomorfologia e formações geológicas superficiais. O acordo, publicado no Boletín Oficial del Estado (BOE), prevê uma campanha oceanográfica, análises laboratoriais, processamento de dados e elaboração de novos perfis geológicos. O orçamento é de 553.187,38 euros, suportado pela SECEGSA nos exercícios de 2025 e 2026, com duração prevista de 16 meses.

Cooperação técnica e digitalização em 2025

Em abril de 2025, o portal oficial maroc.ma noticiou que Rabat e Madrid reforçaram a parceria em digitalização e engenharia ligada aos estudos do projeto, através de novas convenções de cooperação. Este impulso ocorre num contexto de renovado interesse político, com Espanha a continuar a financiar a atualização do anteprojeto e novas campanhas de investigação. A base institucional mantém-se sólida, com os dois países a coordenarem esforços para superar os desafios técnicos e geológicos do Estreito.

A visão paralela: um túnel entre Portugal e Marrocos

Paralelamente, ganha forma uma proposta de ligação direta entre Portugal e Marrocos por um túnel submarino, com um orçamento inicial superior a 800 milhões de euros. O projeto, ainda em fase de consolidação, prevê uma autoestrada contínua apoiada por um eixo marítimo e plataformas logísticas em terra. O traçado português encostaria ao Algarve, ligando-se à A22, enquanto do lado marroquino conectaria às vias de alta capacidade a norte de Tânger. O túnel seria de dupla galeria, com faixa por sentido e corredor técnico de emergência, combinando elementos pré-fabricados imergidos com escavação por TBM.

Impactos económicos e ambientais

A ligação promete encurtar tempos de transporte, reduzir custos porta-a-porta e criar uma janela atlântica para cadeias de valor agroalimentares, têxteis e de tecnologia leve. As áreas francas de Tânger e os portos do sul de Portugal poderiam alinhar janelas de transbordo e serviços de alto valor. Para o turismo, a travessia de minutos em vez de horas pode redesenhar rotas e sazonalidades. No entanto, o impacto ambiental exige monitorização fina. A fauna pelágica, corredores migratórios e ecossistemas sensíveis terão de ser protegidos, com a Avaliação de Impacto Ambiental a garantir que ruído, turvação e vibração fiquem abaixo de limiares aceitáveis. As obras deverão ocorrer em épocas de menor impacto ecológico.

Próximos passos e incertezas

O projeto hispano-marroquino avança com estudos geológicos e cooperação técnica, mas a data de início da construção ainda não é oficial. A campanha de investigação no Umbral de Camarinal, com duração de 16 meses, fornecerá dados cruciais para o modelo geológico tridimensional do Estreito. Já a proposta luso-marroquina está numa fase inicial de planeamento, com um roteiro em quatro fases: estudos ambientais e geotécnicos, plataformas de acesso, imersão e escavação principal, e equipagem final. O investimento total dependerá de geologia fina, riscos sísmicos e do modelo de financiamento, entre portagem ou concessão mista. Ambas as ligações representam saltos infraestruturais que reconfiguram mapas mentais, mas exigem décadas de execução e compromisso político sustentado.

Em resumo

  • O túnel Espanha-Marrocos tem 42 km, com 28 km submersos e profundidade de 475 m; a variante atual prevê dois túneis ferroviários.
  • A campanha geológica no Umbral de Camarinal, orçada em 553 mil euros, decorrerá até 2026.
  • A cooperação bilateral foi reforçada em abril de 2025 com novas convenções de digitalização e engenharia.
  • O projeto Portugal-Marrocos, orçado em mais de 800 milhões de euros, está em fase de planeamento com quatro fases.
  • Os impactos ambientais exigem monitorização rigorosa, com obras programadas para épocas de menor impacto ecológico.
  • Nenhum dos projetos tem data de início de construção definida; ambos dependem de estudos geológicos e decisões políticas.
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