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Vasco Lourenço: o coronel que ajudou a derrubar a ditadura e hoje preside à Associação 25 de Abril

Aos 82 anos, o fundador do Movimento dos Capitães e coordenador da primeira reunião que preparou o golpe revela, num podcast, as memórias da infância, da guerra e da revolução.

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Vasco Lourenço: o coronel que ajudou a derrubar a ditadura e hoje preside à Associação 25 de Abril
Aos 82 anos, o fundador do Movimento dos Capitães e coordenador da primeira reunião que preparou o golpe revela, num podCrédito · Expresso

Os factos

  • Vasco Lourenço nasceu em junho de 1942 em Lousa, Castelo Branco, numa aldeia de 600 habitantes.
  • Foi membro fundador do Movimento dos Capitães e coordenou a primeira reunião a 9 de setembro de 1973.
  • Esteve na Guerra Colonial na Guiné como capitão, de 1969 a 1971, onde comandou uma companhia de caçadores.
  • Não participou no 25 de Abril no continente; dirigiu as ações do MFA nos Açores, onde estava preso.
  • É presidente da Associação 25 de Abril e foi vice-campeão nacional de Bridge por equipas.
  • A esposa, Adélia, é ex-professora primária; tem uma filha, Gabriela, e um neto, Vicente.

Das brincadeiras na aldeia à decisão de ser militar

Vasco Lourenço nasceu em junho de 1942 em Lousa, uma pequena freguesia do concelho de Castelo Branco com cerca de 600 habitantes. Cresceu a correr pela aldeia "com a cabeça cheia de heras", como recorda, e nunca teve medo — "só dos lobos", diz. Frequentou o Liceu Nuno Álvares até perceber que queria "ir para a tropa", contrariando o desejo dos pais, que o queriam padre, médico ou engenheiro. Aos 18 anos, partiu para Lisboa para estudar na Academia Militar. Era um bom cadete, mas a farda não lhe ficava lá muito bem. No Exército, foi instrutor em várias unidades e acabou mobilizado como capitão para comandar uma companhia de caçadores na Guiné, onde esteve de 1969 a 1971. Antes de partir, propôs um lema para o batalhão: "Contrariados, mas vamos!".

O regresso da guerra e a fundação do Movimento dos Capitães

Quando voltou da Guiné, vinha decidido a não regressar à guerra. Queria mudar os ventos da história. Com outros oficiais, foi membro fundador do Movimento dos Capitães e coordenou a primeira reunião, a 9 de setembro de 1973. O movimento cresceu na convicção de que as Forças Armadas não declaravam guerra — quem o fazia eram os políticos. No dia 25 de Abril de 1974, Lourenço não participou na revolução no continente. Estava preso nos Açores, onde dirigiu as ações do Movimento das Forças Armadas (MFA) no arquipélago. A sua liderança à distância foi crucial para o sucesso do golpe em todo o território nacional.

O cidadão para além da farda: Bridge, família e a Associação 25 de Abril

Hoje coronel na reserva, Vasco Lourenço é presidente da Associação 25 de Abril, cargo que ocupa desde a fundação da entidade. Fora da vida militar, é um ávido jogador de Bridge, tendo sido vice-campeão nacional por equipas. É descrito como frontal, que não deixa nada por dizer, e polémico. A sua vida pessoal é marcada pela família: a esposa Adélia, ex-professora primária, a filha Gabriela e o neto Vicente. Numa entrevista ao podcast Geração 40, conduzido por Júlio Isidro, Lourenço revela ainda que o pai tentou que um dos dois filhos fosse padre, mas nenhum aceitou. "Eu sempre disse que queria ir para a tropa", afirma.

O podcast Geração 40: memórias de uma geração que viveu o antes e o depois

Vasco Lourenço é o convidado do novo episódio do podcast Geração 40, um programa que conversa com quem nasceu nos anos 40 — uma geração que se lembra dos racionamentos e da sombra da II Guerra Mundial, viu um país fechado abrir-se à Europa e assistiu ao salto do analógico para o digital. Hoje, olham de frente para a era da Inteligência Artificial. O genérico do podcast é a canção portuguesa de 1943 "A Minha Casinha", estreada pela atriz e cantora Milú no filme "O Costa do Castelo". Novos episódios são publicados todas as quintas-feiras nos sites da SIC Notícias, SIC e Expresso, e nas plataformas de podcast. O programa é conduzido por Júlio Isidro, que guia os convidados numa viagem entre memórias e desafios do presente.

A praxe militar e a frontalidade de um homem polémico

Questionado sobre a praxe militar, Lourenço afirma: "Compreendo a praxe desde que se seja um instrumento que ajude na adaptação e na integração. Nunca aceitei a praxe quando entra nas vilanias para achincalhar." A declaração reflete a sua postura direta e sem rodeios, que o tornou uma figura respeitada e, ao mesmo tempo, controversa no panorama nacional. A sua vida é um testemunho de como um homem nascido numa pequena aldeia, que sempre quis ser militar, se tornou peça-chave na transição de Portugal para a democracia. Hoje, aos 82 anos, continua ativo na preservação da memória do 25 de Abril.

Em resumo

  • Vasco Lourenço foi um dos fundadores do Movimento dos Capitães e coordenou a reunião de 9 de setembro de 1973 que preparou o golpe.
  • Durante o 25 de Abril, estava preso nos Açores e dirigiu as ações do MFA no arquipélago.
  • É presidente da Associação 25 de Abril e foi vice-campeão nacional de Bridge.
  • A sua história pessoal — da infância em Lousa à guerra na Guiné — ilustra a trajetória de uma geração que fez a revolução.
  • O podcast Geração 40, conduzido por Júlio Isidro, explora as memórias e os desafios atuais de quem nasceu nos anos 40.
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