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PCC: a máfia brasileira que fincou raízes em Portugal e desafia duas polícias

Com pelo menos 90 membros em território português, a facção usa empresas lusas para lavar milhões e já investe em futebol, imóveis e comércio.

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PCC: a máfia brasileira que fincou raízes em Portugal e desafia duas polícias
Com pelo menos 90 membros em território português, a facção usa empresas lusas para lavar milhões e já investe em futeboCrédito · Folha de S.Paulo

Os factos

  • PCC tem cerca de 40 mil membros, contra 5 mil há duas décadas.
  • Portugal é o país europeu com maior presença de elementos do PCC, estimados em pelo menos 90.
  • Ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, 64 anos, foi morto a tiros em Praia Grande (SP) em 15 de julho de 2024.
  • Polícia Judiciária deteve em Portugal um dos maiores traficantes do Brasil, residente numa mansão em Cascais.
  • PCC pagou R$ 5 milhões por áudio de reunião do Gaeco com informante.
  • Núcleo político do PCC planejava infiltrar-se em cinco prefeituras.
  • Maior apreensão de cocaína em Portugal envolveu semi-submersível suspeito de pertencer ao PCC.

O assassinato que reacendeu o alerta

Na segunda-feira, 15 de julho de 2024, o ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes foi morto a tiros em Praia Grande, litoral paulista. Tinha 64 anos, estava aposentado, andava armado mas sem escolta, e trabalhava como Secretário da Administração na cidade da Baixada Santista — um dos redutos do Primeiro Comando da Capital (PCC) no estado. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou que o PCC foi o autor do homicídio. Ruy havia sido um dos pioneiros a montar o organograma da facção e, 20 anos antes, prendeu Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC, detido em 1999 por formação de quadrilha. Esse "mapa do PCC", partilhado entre polícias, Ministério Público e Justiça, começou a desmantelar os negócios criminosos e a irritar a cúpula da organização.

De facção prisional a máfia transatlântica

O PCC surgiu em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, interior paulista, como uma reação à "opressão carcerária" — o massacre de Carandiru, em 1992, onde 111 detidos morreram numa intervenção policial, é considerado a semente do grupo. Durante duas décadas, a facção operou exclusivamente em São Paulo com cerca de 5 mil membros. Hoje, segundo o promotor Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há décadas, a organização conta com aproximadamente 40 mil membros e já é considerada uma máfia. "O que nos preocupa é que a organização está tomando tamanho de máfia, se infiltrando no estado, participando de licitações de estado. Isso é característico de máfias, como a gente já viu na Itália", afirmou o promotor em 2024.

Portugal: a base europeia do crime organizado

Portugal é hoje o país europeu com maior presença de elementos do PCC. Acredita-se que haja pelo menos 90 membros no país, muitos deles líderes, que recorrem a empresas portuguesas para lavar milhões de euros provenientes do crime. O grupo já possui estabelecimentos comerciais, imóveis e investimentos em futebol em território português. A Polícia Judiciária deteve recentemente em Portugal um dos maiores traficantes de droga do Brasil, que residia numa mansão de luxo em Cascais e é apontado como um dos principais cabecilhas do PCC na Europa. Noutra operação, a PJ apanhou "Hulk", um dos líderes do PCC, num condomínio de luxo em Cascais. Um membro do PCC detido pela PJ tentou travar a extradição com um pedido de proteção internacional.

Números, operações e a escala do poder do PCC

Em 2006, quando orquestrou uma série de ataques contra as forças de segurança de São Paulo, o PCC tinha 5.012 criminosos identificados no estado. Agora, com 40 mil membros, a facção expandiu-se para além das fronteiras brasileiras. A maior operação policial da história do Brasil teve como alvo o PCC, que também opera em Portugal. A Polícia Federal brasileira pede reforço no combate ao tráfico em Portugal, mas o diretor-geral Andrei Rodrigues não confirma a forte presença do PCC em território nacional, afirmando que "não há motivo para alarme". No entanto, a PJ já realizou megaoperações nos portos portugueses, com um inspetor a declarar: "Estamos a lidar com crimes de gravidade extrema, com molduras penais elevadíssimas." A maior apreensão de cocaína em Portugal envolveu um semi-submersível suspeito de pertencer ao PCC.

Infiltração política e económica

O núcleo político do PCC planejava infiltrar-se em cinco prefeituras, segundo a polícia. O grupo também está envolvido em fraudes e corrupção para branqueamento de capitais, deixando um rasto de crime económico por onde passa. Um inspetor do Fisco e famílias têm sido ameaçados pelo grupo. Empresas de fachada, lavanderias do PCC na Faria Lima (centro financeiro de São Paulo) e o pagamento de R$ 5 milhões por um áudio de reunião do Gaeco com um informante são exemplos da sofisticação financeira da organização. O aumento do imposto do cigarro, ironicamente, também ajuda o PCC, que controla parte do mercado ilegal de cigarros no Brasil.

O que esperar: cooperação ou confronto?

O diretor-geral da Polícia Federal do Brasil, Andrei Rodrigues, admite que Portugal precisa reforçar o combate ao tráfico internacional de droga, mas não confirma a forte presença do PCC em território nacional. A PJ, por seu lado, continua a realizar operações de grande escala, como a que resultou na detenção de "Hulk" e na apreensão do semi-submersível. O risco de uma "narcorepública" no Brasil e a consolidação das facções criminosas em Portugal são alertas estratégicos que ecoam entre as autoridades. A cooperação policial Brasil-Portugal torna-se imperativa para travar a ameaça transatlântica de uma organização que, como um promotor resumiu, "é uma multinacional do crime".

A máfia que desafia o Estado

O PCC já não é apenas uma facção prisional: é uma máfia com capacidade de infiltrar o Estado, participar em licitações e ameaçar a segurança de dois países. O assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes é um lembrete brutal de que a organização não hesita em eliminar quem a enfrenta. Com 40 mil membros, presença em Portugal e um braço político em expansão, o PCC representa um desafio que exige uma resposta coordenada e determinada das autoridades. Como disse um inspetor da PJ: "Estamos a lidar com crimes de gravidade extrema." A pergunta que fica é se as instituições estão à altura da ameaça.

Em resumo

  • PCC cresceu de 5 mil para 40 mil membros em duas décadas, tornando-se uma máfia transnacional.
  • Portugal é o principal hub europeu do PCC, com pelo menos 90 membros e investimentos em imóveis, comércio e futebol.
  • O assassinato do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes mostra a disposição do PCC para eliminar opositores.
  • A facção infiltra-se no Estado, participa em licitações e ameaça funcionários públicos, como fiscais e juízes.
  • A cooperação policial Brasil-Portugal é crucial, mas há divergências sobre a dimensão real da presença do PCC em Portugal.
  • O PCC é uma "multinacional do crime" que combina tráfico de droga, lavagem de dinheiro e corrupção numa escala sem precedentes.
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