Carlos III brinda com Trump e evoca o incêndio de 1814 em jantar de Estado na Casa Branca
Monarca britânico usou humor e referências históricas para celebrar a "relação especial", enquanto Melania e Camila coordenaram vestidos cor-de-rosa.

PORTUGAL —
Os factos
- Jantar de Estado com código "white tie" realizado na Casa Branca em 27 de maio de 2025.
- Carlos III é o terceiro monarca britânico a pisar solo dos EUA e o segundo a discursar perante o Congresso.
- Discurso do rei incluiu piada sobre a remodelação britânica da Casa Branca em 1814, quando soldados incendiaram o edifício.
- Presente de Carlos III: um sino do HMS Trump, submarino da Marinha Real que serviu no Pacífico em 1944.
- Melania Trump usou vestido Dior cor-de-rosa "delfínio", flor favorita do rei; Camila vestiu Fiona Clare com colar de ametistas da rainha Vitória.
- Entre os 100 convidados estavam Jeff Bezos, Tim Cook, Ralph Lauren e apresentadores da Fox News.
- Ementa incluiu velouté de ervas, ravióli de cogumelos, linguado à meunière e bolo de chocolate em forma de colmeia.
- Carlos III discursou por meia hora perante o Congresso, defendendo a aliança de valores e o multilateralismo.
Jantar de gala com brinde e humor histórico
A Casa Branca transformou-se num jardim inglês na noite de terça-feira para receber o rei Carlos III e a rainha Camila num jantar de Estado que seguiu o protocolo mais formal, o "white tie". Donald Trump abriu a cerimónia com um brinde, agradecendo ao Reino Unido pelo "presente fantástico" da herança deixada nos Estados Unidos, a propósito dos 250 anos da independência. O presidente americano declarou que os dois países se mantiveram unidos "contra as forças do comunismo, do fascismo e da tirania". Carlos III respondeu com um discurso marcado pelo humor, confessando ter reparado nos "reajustes" em curso na Ala Este da Casa Branca. "Lamento dizer que nós, britânicos, claro, fizemos a nossa própria tentativa de remodelação da Casa Branca em 1814", disse, referindo-se ao incêndio do edifício por soldados britânicos. O rei continuou a brincadeira histórica: "Comentou recentemente, senhor Presidente, que, se não fossem os Estados Unidos, os países europeus estariam a falar alemão. Atrevo-me a dizer que, se não fossemos nós, vocês estariam a falar francês."
Presente real e discurso no Congresso
O monarca britânico ofereceu aos anfitriões um sino do HMS Trump, um submarino da Marinha Real que serviu no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial em 1944. "Se alguma vez precisarem de entrar em contacto connosco… basta tocar o sino", gracejou Carlos III, antes de brindar com o casal Trump. Horas antes, o rei tinha discursado perante o Congresso dos Estados Unidos, tornando-se o segundo monarca britânico a fazê-lo, depois de sua mãe, Isabel II, em 16 de maio de 1991. Numa preleção de meia hora, Carlos III citou Oscar Wilde — "Hoje temos realmente tudo em comum com a América, exceto, é claro, a língua" — e apelou à manutenção da "relação especial", descrevendo a parceria como "nascida da disputa, mas nem por isso menos forte". O rei foi interrompido várias vezes por ovações e repudiou a ideia de "descarar tudo o que tem sustentado [tal união] nos últimos 80 anos".
Moda e simbolismo floral
Melania Trump escolheu um vestido cor-de-rosa alta-costura Dior, no tom "delfínio", que a casa de moda francesa associa às flores favoritas do monarca britânico. Combinou-o com luvas de camurça brancas. A rainha Camila optou por um tom mais vibrante de cor-de-rosa, com um vestido Fiona Clare, uma das suas marcas de eleição, e um colar de ametistas que pertenceu à rainha Vitória. Ao contrário dos banquetes de Estado em Londres, não usou tiara. No primeiro dia de visita, na segunda-feira, Camila homenageou Isabel II com um alfinete de peito com as bandeiras dos dois países, que a monarca usara nos EUA em 1957. A decoração da sala seguia o tema floral, com toalhas de linho verde e flores da época que pretendiam reproduzir os jardins dos palácios de Carlos III. A mesa foi posta com a baixela da Casa Branca e menus pintados à mão para cada convidado.
Ementa e convidados de elite
Os preparativos foram liderados pela primeira-dama, que também escolheu a ementa. Para entrada: um velouté de ervas do jardim acompanhado por uma salada de palmito. Seguiu-se um prato de ravióli recheado de cogumelos e ricota. O prato principal foi um clássico linguado à meunière, regado com molho de manteiga. Para fechar, Melania elegeu um bolo de chocolate em forma de colmeia com um creme cremoso de baunilha. Entre os cem convidados estavam membros do Partido Republicano, da Administração Trump e juízes do Supremo Tribunal. A lista incluía ainda multimilionários próximos de Trump, como o dono da Amazon, Jeff Bezos, acompanhado da mulher, Lauren Sánchez, o CEO da Apple, Tim Cook, e os apresentadores da Fox News Greg Gutfeld, Laura Ingraham e Bret Baier. Menos expectável foi a presença do criador de moda Ralph Lauren, condecorado com a Medalha Presidencial da Liberdade por Joe Biden em janeiro passado.
Subtis recados e o caso Epstein
O discurso de Carlos III no Congresso incluiu subtis recados ao anfitrião, com evocações históricas e uma alusão ao multilateralismo que nem sempre abunda em Washington. O rei descreveu como os Estados Unidos "equilibraram forças contrárias e foram buscar força à diversidade, unindo 13 colónias dispersas para forjar uma nação com a ideia revolucionária de 'vida, liberdade e a busca da felicidade'". Houve ainda uma menção oblíqua ao caso Epstein, um embaraço para ambos os lados. O rei pediu que "a lei siga o seu curso", numa referência indireta às investigações em curso que envolvem figuras próximas da monarquia e do círculo de Trump. O irmão de Carlos III, André Mountbatten-Windsor, foi detido pela polícia britânica no âmbito dos ficheiros Epstein, e o ex-embaixador Peter Mandelson também foi detido.
Relação especial e desafios futuros
A visita de Estado ocorre num momento de tensões geopolíticas e desafios internos para ambos os países. Carlos III sublinhou a importância da aliança de valores que une as duas nações, lembrando que já antes de existirem os EUA, dezanove soberanos britânicos estudaram os assuntos do Novo Continente ao longo de quatro séculos. O politólogo britânico Anand Menon comentou que, em dez anos, morreram muitos dos votantes do Brexit, sinalizando mudanças demográficas que podem alterar a relação bilateral. O rei, ao defender a "relação especial", procura consolidar os laços num momento em que o Reino Unido redefine o seu papel global pós-Brexit e os EUA enfrentam divisões internas.
Um banquete de simbolismo e diplomacia
O jantar de Estado na Casa Branca foi mais do que uma celebração: foi um exercício de diplomacia cultural, onde cada detalhe — das flores aos brindes — carregava significado político. A escolha do tema floral inglês, a referência ao incêndio de 1814 e o presente do sino do HMS Trump sublinham a complexidade de uma relação que, nas palavras do rei, é "nascida da disputa, mas nem por isso menos forte". Enquanto os convidados saboreavam o linguado à meunière e o bolo em forma de colmeia, o futuro da aliança anglo-americana permanece incerto. Mas, por uma noite, a Casa Branca foi um jardim inglês, e o rei Carlos III lembrou a todos que, apesar das diferenças, a história e os valores comuns continuam a unir os dois lados do Atlântico.
Em resumo
- Carlos III usou humor e referências históricas para celebrar a relação especial com os EUA, incluindo uma piada sobre o incêndio da Casa Branca em 1814.
- O rei ofereceu um sino do HMS Trump, submarino da Segunda Guerra Mundial, como presente simbólico.
- Melania e Camila coordenaram vestidos cor-de-rosa, com a primeira-dama a escolher um tom que remete para as flores favoritas do monarca.
- O jantar de Estado reuniu 100 convidados de elite, incluindo Jeff Bezos, Tim Cook e Ralph Lauren.
- Carlos III discursou perante o Congresso, defendendo o multilateralismo e a aliança de valores, com subtis recados sobre o caso Epstein.
- A visita ocorre num contexto de redefinição do papel global do Reino Unido pós-Brexit e de divisões internas nos EUA.


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