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Ministros do TST trocam farpas em sessão após presidente citar divisão entre 'juízes azuis e vermelhos'

Vieira de Mello Filho e Ives Gandra Filho protagonizam bate-boca de mais de trinta minutos; especialista Vera Chemin classifica situação do Judiciário como 'deprimente'.

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Ministros do TST trocam farpas em sessão após presidente citar divisão entre 'juízes azuis e vermelhos'
Vieira de Mello Filho e Ives Gandra Filho protagonizam bate-boca de mais de trinta minutos; especialista Vera Chemin claCrédito · CNN Brasil

Os factos

  • Presidente do TST, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, mencionou divisão entre juízes 'vermelhos e azuis' em sessão de 4 de maio de 2026.
  • Ministro Ives Gandra Martins Filho admitiu ter classificado colegas como 'legalistas' ou 'ativistas' em curso para advogados coordenado pelo vice-presidente Guilherme Caputo Bastos.
  • Embate durou mais de trinta minutos no plenário do Órgão Especial do TST.
  • Vieira de Mello Filho ironizou a divisão e disse ser 'cor de rosa'.
  • Advogada Vera Chemin afirmou que tribunais superiores não cumprem rigorosamente a Constituição e criticou 'ativismo judicial'.
  • Chemin apontou disfuncionalidade do Legislativo e polarização política como causas da politização da Justiça.
  • Vídeo com trecho da fala do presidente viralizou nas redes sociais, levando-o a se explicar em plenário.

Lede: o embate que expõe a politização da Justiça do Trabalho

A sessão do Tribunal Superior do Trabalho (TST) desta segunda-feira, 4 de maio de 2026, foi palco de um raro e acalorado confronto entre o presidente da Corte, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, e o ministro Ives Gandra Martins Filho, após o primeiro fazer referência a uma divisão dos magistrados entre 'vermelhos e azuis' — metáfora que rapidamente viralizou nas redes sociais. O episódio, que durou mais de trinta minutos, expõe as tensões internas de um tribunal que se vê no centro de um debate mais amplo sobre a politização do Judiciário brasileiro. Para a advogada especialista em Direito Constitucional Vera Chemin, a cena é sintoma de uma deterioração mais profunda. 'Considero deprimente a situação em que o Poder Judiciário chegou no contexto brasileiro', afirmou em entrevista, alertando que disfuncionalidades antes restritas ao Legislativo agora contaminam um poder que deveria ser técnico e apolítico.

A origem da discórdia: curso para advogados e a classificação por cores

O estopim do conflito foi um curso voltado a advogados que atuam no TST, coordenado pelo vice-presidente da Corte, Guilherme Caputo Bastos, no qual Ives Gandra Filho palestrou. Durante a aula, Gandra apresentou slides que classificavam os ministros do Tribunal por cores: 'azuis' para os mais legalistas, 'vermelhos' para os mais ativistas — uma distinção que, segundo ele, reflete a realidade do tribunal. 'Há ministros que têm visão mais liberal e mais intervencionista; uns mais legalistas, outros mais ativistas', justificou Gandra em plenário. Vieira de Mello Filho, ao tomar conhecimento do material, reagiu com veemência na abertura da sessão. 'Batizado que fui pela cor que me deram, queria deixar claro qual era minha causa. A minha causa é a defesa da instituição', declarou, acrescentando que não poderia 'ficar omisso diante de curso de como advogar nessa corte' e questionou se aquilo não configurava um 'conflito ético'.

O bate-boca em plenário: acusações de 'juízo moral' e defesa da pluralidade

Após a fala do presidente, Ives Gandra Filho tomou a palavra e rebateu a dicotomia entre 'causa' e 'interesse' estabelecida por Vieira de Mello, afirmando que a distinção soou como um 'juízo moral' e foi recebida de forma 'ofensiva' pelos colegas. O ministro, que se classificou como legalista, reiterou que a divisão interna é um fato: 'Há turmas que são mais liberais e turmas que são mais protecionistas. Essa realidade não é possível esconder'. Vieira de Mello, por sua vez, ironizou a classificação e disse ser 'cor de rosa', misturando azul com vermelho. 'Esse tribunal é plural. Sempre teve divergência interna. Só que as divergências internas eram construídas com ideias e argumentos, e não com rótulos', afirmou, questionando o colega: 'Com que direito vossa excelência pode rotular alguém dessa forma?'

A viralização e o contexto político mais amplo

O trecho da fala de Vieira de Mello Filho que mencionava 'juízes azuis e vermelhos' rapidamente se espalhou pelas redes sociais, onde usuários associaram a classificação a posições políticas dos magistrados. O presidente do TST classificou o recorte como 'maldoso' e disse ter se manifestado para esclarecer que não é 'juiz parcial' e que decide 'sempre com a técnica'. O episódio ocorre em meio a um clima de tensão entre os Poderes. Na semana anterior, o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Vieira de Mello, ao se defender, fez referência indireta ao caso: 'Não age por outras vias, como infelizmente viu no Senado recentemente'.

A visão de especialistas: 'ativismo judicial' e o descompasso com a Constituição

Para Vera Chemin, a fala do presidente do TST evidencia uma 'progressiva politização da Justiça', estimulada paradoxalmente pelas instâncias mais altas do Judiciário. Ela apontou que os tribunais superiores não estão cumprindo rigorosamente os dispositivos constitucionais e a legislação, substituindo-se ao Legislativo na criação de normas por meio de uma 'criatividade no direito' que atende a interesses pessoais e políticos. A especialista identificou duas causas principais: a disfuncionalidade do Legislativo, cujos membros, envolvidos em supostos atos ilícitos, ficam submetidos ao STF, enfraquecendo o próprio Congresso; e a polarização político-ideológica, que leva partidos a judicializar suas questões junto ao STF, gerando um 'excesso de judicialização' e, consequentemente, a politização da Justiça. 'Chegamos ao ponto de ter juízes ativistas, infelizmente ao ativismo judicial', concluiu.

O que está em jogo: o futuro da Justiça do Trabalho e a confiança no Judiciário

O embate no TST não é um fato isolado, mas parte de um debate mais amplo sobre o papel do Judiciário no Brasil. A Justiça do Trabalho, historicamente associada a um estigma de maior proteção aos trabalhadores, encontra-se em posição especialmente sensível. Vera Chemin defende que o Judiciário deve buscar o equilíbrio: proteger os direitos trabalhistas garantidos pelo artigo 7º da Constituição Federal de 1988, sem que a intervenção do Estado extrapole o necessário. A pergunta que fica é se o tribunal conseguirá superar as divisões internas e restaurar a imagem de imparcialidade. Enquanto isso, a cena dos ministros trocando farpas em plenário — e o vídeo que corre as redes — alimenta a desconfiança de uma sociedade que já vê o Judiciário como mais um ator no tabuleiro político.

Em resumo

  • O presidente do TST, Vieira de Mello Filho, e o ministro Ives Gandra Filho trocaram acusações em sessão de 4 de maio de 2026, após Gandra classificar colegas como 'azuis' (legalistas) e 'vermelhos' (ativistas) em um curso para advogados.
  • O episódio durou mais de trinta minutos e expõe a politização interna do tribunal, que a especialista Vera Chemin considera 'deprimente' para o Judiciário como um todo.
  • Chemin aponta que os tribunais superiores não cumprem rigorosamente a Constituição e praticam 'ativismo judicial', substituindo-se ao Legislativo.
  • A viralização do vídeo com a fala de Vieira de Mello Filho ocorre em meio a tensões entre os Poderes, incluindo a rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias ao STF.
  • O caso levanta questões sobre a imparcialidade da Justiça do Trabalho e a necessidade de equilíbrio entre a proteção dos direitos trabalhistas e a não intervenção excessiva do Estado.
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